vida_de_ramonVida de Ramon, de Luísa Costa Gomes

Ramon Llull ou Raimundo Lúlio foi uma personalidade marcante da península ibérica no século XIII. Doutor Iluminado, passeou a sua indomável autonomia pela Europa, Mediterrâneo, Ásia Menor e África do Norte. Luísa Costa Gomes oferece-nos o relato da sua vida e da sua conversão,

fiel à forma como foi recolhida na Vita Coetanea, supostamente ditada pelo próprio Ramon, texto que foi incluído neste livro. Contudo, recordemos que o relato romanceado vive sobretudo da lenda e da imaginação do escritor.

Ramon, ao tempo da sua conversão ao Cristianismo, apresentava-se com o propósito de escrever a mais bela das obras, o melhor livro do mundo contra os erros dos infiéis e não se achando à altura do desafio, inicia a sua educação e aprendizagem pelo mundo. Desenvolve um método de conversão, no qual procura validar pela razão filosófica as verdades de fé. É um adepto do debate, em oposição ao ensino escolástico que apenas apela à memória. Acredita converter os muçulmanos com o seu método, vencendo-os pelo debate, ganhando a sua conversão. Embora tenha vencido muitos desses debates, acabou preso e escorraçado sem alcançar o seu propósito. As suas ideias e os seus escritos passaram pelo apurado escrutínio das autoridades eclesiásticas que não encontraram nada que fosse contrário à fé católica.

A narrativa deste livro não se centra no debate teológico. É a figura do indomável Ramon Llull, aquele que persegue o seu propósito com uma invulgar tenacidade e busca no mundo a sua fonte de inspiração mais nobre, quem brilha na escrita de Luísa Costa Gomes. Não se trata de um Ramon em versão quixotesca, uma vez que alcançou o respeito e a admiração dos seus pares. Afinal, era discípulo da Razão que convence. Acredita que a Terra Santa só pode ser conservada por uma espécie de tala espiritual que mantivesse no lugar e conjuntada a terra adquirida pela força das armas. Essa é a sua missão: uma nova cruzada com outro tipo de armas.

A escrita de Luísa Costa Gomes é de uma irrepreensível eficácia, sem se subjugar à materialidade narrativa, numa elegância que cativa o leitor. Como na passagem em que o escravo de Ramon se apodera da sua espada para o matar. A autora eleva esse momento, resgatando-o a uma vingança torpe, com uma reflexão: Haveria nisto um desejo de simetria que é plausível naquela mente ofuscada pela elegância geométrica: assim como Ramon quisera vencê-lo pela Razão, o escravo triunfaria pela Força. Quando os personagens de exaltam ou reagem de forma inesperada percebemos que lhes confere uma tessitura individualizada, tal como respeita a forma de olhar de cristãos e muçulmanos, rejeitando qualquer estereótipo. Na escrita de Luísa Costa Gomes encontramos um Ramon por inteiro, na sua força e na sua fragilidade, na sua lucidez e nas suas divagações místicas, muitas das vezes recreadas através de encontros com personagens improváveis e fantásticos que, com os seus relatos, enriquecem a aprendizagem do Doutor Iluminado. Um mergulho no século XIII, onde muçulmanos e cristãos disputam o mesmo Deus na terra única que os viu nascer.

não te posso tirar o medo da morrer, mas posso fazer-te imortal. (Retirado do diálogo do médico judeu com o Rei que tinha medo de morrer, e que acabará por perder o trono em exercícios de imortalidade.)

sobre o livro

 

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