em_viagem_europa_lesteEm Viagem pela Europa de Leste, de Gabriel García Márquez.

Em 1950, convidado a assistir ao VI Congresso da Juventude de Moscovo, Gabriel García Márquez atravessa uma série de países socialistas, registando a sua viagem em crónica, num relato vivo de um mundo agora extinto.

Com sentido de humor e desassombro lança um olhar arejado e lúcido sobre os países de leste e suas gentes, com quem troca experiências de vida, num misto de generosidade, curiosidade e catarse.

A ideia de uma viagem, contornando o circuito oficial organizado para os delegados ao Congresso, permite-lhe escapar à realidade fabricada para “estrangeiro ver”, à encenação de uma nação vestida com roupagens de ver a Deus num multitudinário domingo de quinze dias.

O traço firme e breve com que descreve os seus companheiros de viagem, e que lhe conhecemos da ficção, é aqui revisitado com mestria literária: …Franco, correspondente ocasional de revistas milanesas, domiciliado onde a noite o surpreenda. O peso da geografia de Leste, na vida das pessoas, é abordado sem qualquer tipo de complexo. Berlim, cidade sitiada e dividida administrativamente pelas potências vencedoras da II Guerra Mundial (o muro só seria construído em 61), é descrita na sua parte “ocidental” como uma minúscula ilha ocidental rodeada de oriente por todos os lados. Mas é a falta de um centro, onde se experimente a emoção de ter chegado, que marca a sua experiência berlinense, como se a ausência desse ponto centrípeto fosse a marca de água de uma identidade usurpada. Na forma pobre como as pessoas se vestem, na tristeza que demonstram, na apatia e no automatismo com que executam as tarefas oficiais, encontra, uma vez mais, a marca dessa identidade usurpada, onde o socialismo de Estado deixou um vazio. A revolução socialista não trouxe a novidade, nem o progresso alternativo ao do ocidente; para onde olhe, encontra um desconcertante mundo velho, em que todas as coisas lhe parecem antiquadas, bafientas, decrépitas.

Gabriel García Márquez constata que os sacrifícios impostos aos trabalhadores, para assegurar uma vida melhor às gerações futuras, são tolerados pela população com resignação e uma patente falta de entusiasmo. Os operários no ocidente, explorados pelo capital, têm mais conforto, melhor roupa e direito à greve.

Na União Soviética deixa-se impressionar pela generosidade espontânea do povo russo, pela irrepreensível organização do evento e apoio dispensado aos delegados, pela reserva russa em discutir política com estrangeiros e pelo seu gosto em praticar a língua falada pelos convidados. Identifica a incongruência de um país que alcançou conquistas tecnológicas de ponta, mas descurou o consumo massificado que podia proporcionar um conforto de nível ocidental à sua população. Gabriel García Márquez deixa-nos um fresco de uma época irrepetível e impossível de conceber nos dias de hoje, neste espaço global em que se transformou o nosso mundo.

Era o mesmo alvoroço que eu experimentara em Nice – a praia mais cara da Europa – ao descobrir que, quando a maré subia, os detritos da cidade vêm à tona na água onde os milionários nadam.

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