apontamentosApontamentos de escrita criativa, de José Couto Nogueira

Este livro reúne os apontamentos usados pelo autor no seu curso de escrita criativa, inserido no Âmbito Cultural do El Corte Inglés. O curso iniciou-se em 2016 e vai na sua 25ª edição – quem escreve estas linhas participou na oitava edição.

Ciente de que o talento não se ensina, mas que o domínio da técnica de escrever e de bem se expressar é algo que pode ser aprendido e incentivado, José Couto Nogueira partilha com o leitor os conteúdos do seu curso bem como os exercícios propostos aos alunos.

O desejo de transmitir aos outros as nossas experiências de vida ou as histórias que nos marcaram, esbarra na consciência da dificuldade de traduzir aquilo que se sente em palavras escritas. Uma dialética entre a arrogância de presumirmos que os outros estão interessados no que temos para dizer e a modéstia de acharmos que não temos a competência de um escritor profissional. Para José Couto Nogueira, escrever um livro está ao alcance de qualquer pessoa que conheça bem a língua e tenha talento. Se o talento não se ensina, a sua ausência pode ser compensada com trabalho intenso que permite alcançar um texto competente. Poderá não ter o brilho que só o talento confere, mas será o suficiente para transmitir aquilo que se almeja.

O escritor é o artista que encontra a sua voz no que escreve. É essa voz própria, que vem do interior mais profundo do ser, e que não é previamente lapidada ou polida pelas regras da boa escrita, que confere a autenticidade aos grandes escritores. Nas dez lições agora reunidas – no curso presencial existe também a participação de escritores convidados que partilham a sua experiência – abordam-se temas que vão desde a estrutura, a cronologia, o tipo de narrador, as rotinas de trabalho, o planeamento até à edição da obra. Para cada um destes temas, José Couto Nogueira recorre ao testemunho de diversos escritores, estrangeiros e portugueses, que ajudam a perceber como os autores consagrados lidam com estes obstáculos. Recordando-nos sempre ser na fluidez das regras que o escritor encontra a liberdade para afirmar um estilo próprio.

A linguagem usada no livro é cuidada e acessível e, sempre que se proporciona, pisca o olho à literatura, como neste exemplo em que descreve o narrador tradicional: …o narrador era um drone que pairava sobre a cabeça das pessoas… O leitor que sinta dentro de si o bichinho da escrita, encontra nestas dez lições muitas das respostas às suas dúvidas, e pistas para se organizar e meter mãos à escrita. Basta que se dê ao trabalho de fazer os exercícios propostos para aferir da sua capacidade para a escrita de ficção.

Termino invocando o slogan do curso: “da vontade de escrever à vocação literária”. Ou seja, vencer a distância entre o querer e o fazer.

Sobre o livro

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