Os portugueses, um povo suicidaMiguel de Unamuno

Um estrangeiro, ao abordar as idiossincrasias de um povo que lhe é próximo, depara-se sempre com uma tarefa ingrata. Miguel Unamuno, filósofo, ensaísta, dramaturgo e poeta, escreve este pequeno ensaio, datado de 1908, sobre a fatalidade sentimental que leva os portugueses ao suicídio.

Observando o monumento a Eça de Queiroz, invoca a sua obra, de homem implacável para com as fraquezas da sua terra e descrente do seu povo, como penhor desta reflexão crítica sobre os portugueses; esse povo triste, mesmo quando sorri. O pensador catalão Unamuno rende-se à beleza da frase inscrita no sopé do monumento: Sobre a nudez forte da verdade, lançar o manto diáfano da fantasia.

Encontra no português um povo marcado por derrocadas, desde Alcácer Quibir ao terramoto de 1755, mergulhado num pesaroso eflúvio a morte que se desprende dos artigos que encontra nos jornais. Cita um articulista que, referindo-se à nação, não hesita em escrever: perante o corpo inerte de um moribundo todos devem ajoelhar-se. É neste ambiente que Unamuno se sente autorizado a prosseguir. Um país a quem os grandes insistem em o condenar a um permanente sentimento de orfandade, desde o rei D. Sebastião, à fuga da corte para o Brasil, passando pelos seus poetas e pensadores suicidas: Antero de Quental, Soares dos Reis e Camilo Castelo Branco, aos quais se juntam os líderes políticos como Sidónio Paz. Até o regicida Buiça se inscreve numa coragem suicida.

Unamuno recorre à carta de um amigo português para abordar o cancro nacional, sobre o qual pesa uma herança trágica, secular, duma ignorância podre e duma corrupção criminosa que permite ao autor da missiva interrogar-se: se morremos nobre ou miseravelmente. Um povo sentimental ao qual advinha uma certa aspereza escondida, a meiguice portuguesa está só à superfície; raspai-a e encontrareis uma violência plebeia que chegará a meter-vos medo.

No percurso em busca da identidade portuguesa e da definição de uma alma nacional, este pequeno ensaio ocupa um lugar nobre. O texto não se afasta da abordagem poética tão comum entre os pensadores portugueses, ao qual Unamuno confere uma visão e amplitude próprias de um humanista.

Terminemos com umas palavras dedicadas ao português: A paixão o traz à vida e a mesma paixão, consumida a sua chama, o leva à morte.

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