A Obsessão da Portugalidade, de Onésimo Teotónio Almeida

Escrever sobre Portugal sem a pretensão de fazer um diagnóstico, este é o desafio a que se propõe o autor. Sempre que abordamos a crise da identidade portuguesa, falamos de uma doença crónica que padecemos desde o fim da época dos descobrimentos, altura em que fomos grandes, maiores do que a nossa expressão territorial de canto descaído no fim da europa.

O “ouro” que nessa época chegava a Lisboa, dispensou o país de encontrar outras formas de produzir riqueza, como a modernização da agricultura ou o desenvolvimento industrial. Recentemente, o dinheiro vindo da Comunidade Europeia, a nossa Nova Índia, desta vez sediada em Bruxelas, acentuou a nossa tendência para o facilitismo.

A portugalidade começa por aceitar Portugal como lugar de nascença e que viaja connosco não como um freio, mas como presença afetiva. Vários são os autores que defendem existir na cultura portuguesa e, em particular na sua língua, fatores singulares, particularidades nacionais que mais nenhuma nação partilha. Tese que Onésimo refuta. Defende que grande parte da discussão em torno da nossa identidade não passa de mera especulação criativa, repleta de eflúvios poéticos, onde a intraduzibilidade da palavra saudade, como prova da singularidade da língua portuguesa, não passa de um mito. Rejeita mesmo o papel determinístico da língua, que considera sujeita à mundividência e à evolução cultural. Tal como, em resposta à hegemonia linguística do poder masculino, a limpeza e assexualização que se lhe seguiu não terminou com a desigualdade de género. Sobre a singularidade da língua como definição da identidade de um povo, e pelo seu fino sentido de humor, não resisto a transcrever: por os brasileiros possuírem mais de cem palavras para se referirem a cachaça, não lembrará a ninguém apontar a “cachacidade” como a alma nacional brasileira.

A nossa identidade não se pode remeter a uma repetição imitativa do passado, como se o país não pudesse existir fora das suas tradições, incapaz de se reinventar. Perdido o império, o debate da identidade centrou-se na lusofonia, sem nos atrevermos a retomar o discurso do papel civilizacional da língua; que foi instrumento de evangelização, tal como o chicote foi o instrumento de trabalho.

Muitas das contribuições para este tema revestem-se de um cariz mais poético do que filosófico, como esta frase de Eduardo Lourenço: A língua portuguesa é menos a língua que os Portugueses falam do que a voz que fala os Portugueses. Uma quase impossibilidade de pensar o português fora do sonho.

Uma coletânea de crónicas corre o risco de repetir, ocasionalmente, os mesmos argumentos, mas ao fazê-lo de forma quase literal, induz o leitor a pensar que, por lapso, terá recuado umas quantas páginas na sua leitura. Felizmente, o autor consegue manter sempre vivo o interesse do leitor. O sentido de humor e a acessibilidade da linguagem facilitam a adesão ao texto escrito. O papel da língua, as mundividências que encerra, a forma como ao longo dos tempos se vai ajustando às necessidades da linguagem do quotidiano, são aqui abordados sem sentimentalismos ou desvios emocionais. Sobre o termo saudade, que alegadamente encerra em si um conceito inacessível a um não-português, termina o debate de forma lapidar: A palavra (saudade) é hoje tão sinónimo de Portugal como o galo de Barcelos.

Sem dar nenhum tema por encerrado, Onésimo Teotónio Almeida defende para o debate filosófico as armas da filosofia, ou seja, argumentos válidos que o discurso da verdade poética dispensa. Este é um país que tem sabido aproveitar as velhas rotas para se projetar no mundo, agora como povo imigrante, sem nunca cortar os laços com a sua terra natal. Este livro, atrevo-me a dizê-lo, encerra em si uma grande lição: mais do que navegar é preciso fazer ondas.

… a beleza sonora de “saudade”- leve, doce, suave – deve ter ajudado a transformá-la em preferida dos poetas. Mas isso não faz dela algo misterioso que os estrangeiros não possam nunca entender ou sentir.

sobre o livro

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