Sísifo, de Luís Carmelo

Este romance encerra a trilogia com o mesmo nome, iniciada em Gnaisse, seguida de Por Mão Própria.

Quando um homem se detém, fica a fazer sombra, diz o autor em jeito de provocação. O escritor não pertence a esse domínio de intersecções, ele coloca no papel a luz que perturba e guia, atreva-se o leitor a entrar no jogo.

Os personagens cruzam-se no propósito de subir ao Monte Ventoso, misturando as suas histórias, vivendo-as uma e outra vez, em direto ou em diferido, como se o tempo andasse às voltas com a realidade, espreitando-a sempre de um ângulo ligeiramente diferente, num registo digno de um pintor cubista. Cada personagem narra a sua experiência na primeira pessoa, como num romance escrito a várias mãos, que é sempre um delta que que se confunde com o oceano, tal como a versão de cada um se confunde com a realidade.

A escrita ganha amplitude, salta e incorpora analogias perturbadoras: os teares da mucosa nasal, artefacto narrativo que nos prepara para a descrição, através dos odores, de um arremesso pedófilo. Por vezes, assume uma tonalidade poética, pausa para respirar (descanso do guerreiro): olhar para um mar de Agosto que tinha o azul liso como limite, ou uma espécie de restolho esvaziado de onde foi retirado o sumo da colheita. Asserções, dignas de uma sabedoria escolástica, perturbam o ritmo da leitura, são inflexões que interrompem o fio da imaginação: o medo é a instalação abreviada da morte ou a armadilha é o ponto de encontro dos iniciados. A descrição dos ambientes abre portas que remetem para o fantástico: A sala de pequenos almoços do hotel Malaucena era revestida de madeira e prestava-se a ser interpretada como nave conventual… Os recursos literários do mestre não se esgotam nestes breves exemplos, ao leitor deixo o desafio em aberto.

Muitos romances propõem uma caminhada, um cume a atingir, o desfecho de uma história, o clímax, aquilo que segura a pedra no cume do monte. Não será esse o caso desta trilogia. Dominada a estrutura do romance e as suas ferramentas criativas, Luís Carmelo liberta-se do convencional, de tudo o que aprendeu e (provavelmente) ensina – mas não das suas referências-, para ousar dizer no fim: Sobraram apenas montanhas sem cume. A ascensão é o seu convite à inquietude.

O centro da cidade passou a ser o calaboiço gigante sobre o qual eu poderia mijar abraçado ao infinito.

sobre o livro

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