Nova Teoria do Pecado, de Miguel Real

Neste ensaio sobre o pecado, o autor introduz os conceitos que aplica como ferramentas na construção do seu edifício: Mal, Medo, Excesso de Ser, Perfídia, Mal-Estar… Não hesita em invocar o seu lado de ficcionista para dramatizar alguns episódios, em que a humanidade se viu defrontada nos seus tempos primitivos, facilitando a apreensão desses conceitos, e enriquecendo a escrita com alguns apontamentos poéticos: …quando os olhos sossegados repousam no horizonte ou, fechados, adormecem.

 

A história do pecado segue de perto a evolução do próprio homem, salta com ele no momento em que deixa de reagir de forma primária ao medo e consegue apreender a realidade, superando as emoções básicas. No estado primitivo, o homem encontra no medo a condição fundamental da sua sobrevivência. Só quando consegue desenvolver estratégias para se proteger dos perigos se liberta do estado de medo permanente e é capaz de experimentar a alegria. Não estamos então muito longe do domínio da razão e do mistério (ir mais além da consciência das coisas e sentir a necessidade de as explicar). O homem capaz de pensar, desenvolverá todo um edifício semântico e ontológico do pecado – noções como arrependimento, remorso, culpa ou mentira, entram em jogo. O homem não só é capaz de entender e explicar a realidade como de a deturpar em benefício próprio. O pecado não surge da religião, é uma construção eminentemente humana, da qual a religião se apropria conferindo-lhe uma natureza metafísica: De consciência do desvio, tornou-se desobediência a uma prescrição absoluta, de natureza sagrada – eis o nascimento do pecado cristão.

A evolução do pecado confunde-se com a história da moral, indispensável à consolidação de um espírito de comunidade. De uma ofensa a Deus, passou a infração das regras sociais, a atentado contra o próprio homem. Evoluiu-se da noção de pecado para a de transgressão, passou-se da penitência à ação coerciva da lei, do perdão de Deus à reparação social. O remorso dá lugar a um mal-estar por se ter transgredido uma norma aceite pela comunidade, numa remissão da esfera religiosa para a esfera pessoal. Como o autor realça, a Europa foi descristianizando-se, retirando Deus da equação do bem e do mal, levando a própria Igreja a adaptar-se, valorizando o papel da reconciliação como forma primeira de reparação.

O pecado ou transgressão estarão sempre presentes na consciência da humanidade que nunca deixará de procurar a sua salvação, mesmo que se assista a um regresso aos tempos medievais.

Sem o sentimento de culpa, fundamento do pecado, a Europa teria sido historicamente uma outra civilização e uma outra cultura.

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