A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata

Uma casa onde se oferece aos clientes no inativo, a oportunidade de se deitarem ao lado de jovens adormecidas. O livro abre com a advertência ao velho Eguchi: …evite, peço-lhe, as brincadeiras de mau gosto!

Desfrutar de uma noite ao lado de uma bela rapariga adormecida, admirar-lhe as formas, sentir-lhe o odor do corpo e poder tocar-lhe sem transgredir as regras da casa, é o ultimo prazer destes velhotes que deixaram de ser homens.

Um regresso à sua juventude através das recordações que a visão destas raparigas lhes proporciona. Poder dormir a seu lado e deixar fluir os sentimentos de velhotes que já não tinham nada de homens. Eguchi não é um desses clientes no inativo, tão somente procura um absoluto no horror da velhice. Se os outros velhos buscam a juventude perdida, Eguchi prepara-se para esse momento em que, também ele, será um velho no inativo. Aquela é a sua oportunidade de se despedir do corpo que o acompanhou nos desejos. Aquelas jovens nuas, adormecidas, são um mundo estranho, um mundo de olhos fechados. Budas a quem os velhos se agarram em oração, corpos que escutam em silêncio, sem responder, despidos da sua consciência humana. Corpos exalando desejo, tecendo volúpias perversas nas mentes de velhos decrépitos. Eguchi jamais havia passado uma noite tão casta com uma mulher. De tudo isso, solta-se uma inocência magistralmente descrita por Kawabata, sem nunca deixar de nos envolver no perfume do erotismo. Enquanto Eguchi contempla os movimentos dos dedos dos pés da bela adormecida, compara o seu contentamento a uma música, infantil e imperfeita, … mas encantadora. Algo desprovido de culpa; uma viagem em que, juntos, velho e rapariga, admiram flores.

Os velhos são a soma de todos os demónios que guardaram dentro de si e que só o contacto com a beleza mais pura os pode libertar. Mas o que pretende o velho Eguchi, o que o move? Deseja experimentar a maior das fantasias permitida naquela casa. Como todos os clientes no inativo, procura resgatar a sua juventude, não para ser eterno, mas para viver um momento absoluto de felicidade, uma última vez.

O vento, por momentos, passou sobre o telhado, mas já não era, como há pouco, o barulho anunciador do inverno.

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