a construção do vazio, de Patrícia Reis

Sofia nasceu num lar sem amor, a crescer para caber nas mãos do pai. Sorte a dele, e a sua infância a ser-lhe roubada. Sempre foi um incómodo para a mãe, e não estranhou que esta optasse por ignorar a situação: naquela casa não havia lugar para outra mulher. A mão sempre pronta a punir a filha, como se fosse possível disfarçar a rejeição.

E a Sofia a tratar por tu a maldade, uma linguagem que pode usar a seu favor e reverter o jogo. No mundo das boas meninas, a educação e um sorriso são tudo. Cedo percebe que esse não é o seu mundo.

Um padrasto surge na sua vida, um homem bom, sob o qual a mãe se reinventa. Tão empenhada em agradar ao seu novo homem que se transforma, aos poucos, no marido que deixou para trás.

A adolescência trouxe-lhe os amigos, escolhidos. Três homens como paredes de uma casa a que se pode entregar. Só não escolhe apaixonar-se por quem, nela, desenhou a sua sabedoria. Uma doença que prontamente rejeita. Ser a menina-desastre sempre foi a sua zona de conforto. Até á última traição: a do corpo. Não lhe dá essa satisfação: nada existe no fim da estrada para quem sempre sentiu que nunca esteve na vida. Terminado o livro, a quem dirigir as palavras escritas quando nunca se deixou de mentir? O vazio não carece de sentido. O que era preciso ser revisto, já foi.

As duas figuras sobrepunham-se e a maldade completava-se, perfeita, atroz, circular.

Poderosa esta escrita de Patrícia Reis, não nos convida à solidariedade piedosa, mas à cumplicidade dos tímidos, dos que, não sabendo lidar com o mundo de Sofia, não lhe querem faltar.

sobre o livro

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