Os Dias Não Andam Satisfeitos, de Joaquim Pessoa

Adiei-me por ti. E por ti ardo, como o velho anjo que pegou o fogo aos quatro pontos cardeais.
Existe nesta poesia um prenúncio de tempo, um desencanto invocando a presença negada da amada; uma ausência vivida a dois, só possível no amor, na verdade dos amantes. Dor de uma promessa por cumprir, de musas que se distanciam. A eternidade é o tempo em que nós não existimos, em que as palavras nos dispensam e o poema não é mais do que uma suspeita, a casa branca que guarda os dias escuros.

 

Envelhecemos nos dias que nascem doentes, o pecado original onde os lobos devoram os que não podem prosseguir. Vidas humanas descartáveis. A consciência do poeta em ler o poema sem o ter escrito, tal como as fêmeas constroem os lugares antes de os habitar. E o sorriso triste de quem não perde o sentido de humor: Não sabia escrever versos / e, por isso, / nunca os escreveu. // Fez muito bem.

O amor presente no canto do poeta faz-se de distância, memória que apenas se revê quando se olha para o futuro. A força da sua escrita é uma pedra atirada à cabeça do sonho, invocando o desespero, uma insatisfação, um não querer mais do que bem querer em que tudo nos fica curto: o amor, as musas, a pátria… o que se esvai. Os dias não andam satisfeitos quando, em consciência, a maioria de nós se resigna a viver no limiar da liberdade. Que o poeta solte o grito, só a ele cabe desamarrar os dias.

E fiz amor com o silêncio que deixaste.

sobre o livro

Advertisements