Ela punha os lençóis a secar e apeteceu-me, de repente, escrever sobre isso, sobre este quadro tão natural quanto belo, e com ele encher uma página de jornal, duas, três, com uma manchete exuberante: Rapariga põe lençóis a secar! Assim, com uma exclamação final, a admiração e a surpresa talhadas no papel como uma escultura na pedra, a encher as ruas, os escaparates, a voz dos ardinas, as conversas das gentes: e o acontecimento era este e resumia-se à sua simplicidade; não era uma guerra, um desastre, uma catástrofe, uma morte, uma condenação, uma panegírico, era só isto mesmo: lençóis brancos adejando ao vento da tarde.

Todos os Dias Morrem Deuses, de António Tavares, 2017, D. Quixote.

 

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