O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchel

Joe Gould é um escritor, artista e historiador, carinhosamente conhecido pelos seus amigos como o professor Gaivota, e que pode, facilmente, ser tomado por um mendigo. Para afastar suspeitas decide criar o fundo Joe Gould. Não se dedica à mendicidade, mas à recolha de contribuições para o seu fundo que financia o projeto da sua vida: a escrita da História Oral. Um registo da história informal da gente em mangas de camisa e, segundo o narrador, um repositório de tagarelices, uma miscelânea de boatos, de mexericos, de paleio, de tretas, de lérias, de zunzuns, fruto, segundo os cálculos de Gould, de mais de vinte mil conversas.

 

Num humor sarcástico, em que algumas referências escapam a quem não conheça os meandros de Nova Iorque onde decorre a ação, acompanhamos o relato do autor sobre Joe Gould e as suas peripécias. O livro, dividido em duas partes, acolhe dois textos escritos com dez anos de intervalo para uma rúbrica designada por Perfis que o autor/narrador mantinha na prestigiada revista The New Yorker.

Joe Gould oferece, generosamente, o prazer da sua companhia aos turistas que deambulam pelos bares ou às pessoas que vai conhecendo nas festas em que consegue entrar. Explica-lhes o alcance da História Oral, não se coibindo de se vangloriar e, em troca de uma bebida, está disposto a recitar um poema, fazer um discurso, defender uma tese ou tirar os sapatos e imitar uma gaivota.

Quando se sabe da sua morte, um grupo de amigos cria um comité para resgate dos inúmeros cadernos onde registou a História Oral, e que o narrador sabe não passar de um mito criado por Gould para justificar a vida de boémio e sacar uns dólares aos amigos. Mesmo assim, aceita fazer parte do comité: o mito sobrevive a Joe Gould e à sua obra. Talvez, a verdadeira História Oral sejam os Perfis que o autor publica na New Yorker. Artigos onde reúne uma galeria de vencidos da vida, vagabundos, bêbados, artistas falhados e figuras excêntricas, a verdadeira e única versão da História Oral.

António Lobo Antunes no seu prefácio faz questão de partilhar o quanto apreciou esta obra: em poucas ocasiões me ri tanto e admirei tanto: li-o três vezes seguidas num pasmo crescente, num júbilo renovado e a cada leitura descobri um livro diverso, surpreendente, magistral, inclassificável. Isto depois de invectivar contra os que leem trivialidades, patetices ou esses tristes subprodutos labirínticos que fazem a alegria de universitários exangues e amantes de civilizações estéreis.

sobre o livro

 

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