hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral

Neste segundo romance Bruno Vieira Amaral regressa à Baixa da Banheira e às memórias de infância, em busca da história por detrás do assassinato do primo. Dele guarda apenas a memória desse dia: Mataram aquele teu primo, o João Jorge. O narrador é o próprio autor, preso a um fascínio que não consegue explicar, ao ímpeto de registar o sucedido em livro.

 

A pesquisa que realiza, leva-o junto dos que conheceram João Jorge ou que, não o tendo conhecido, cruzaram com ele e, dessa forma, influenciaram as suas opções. Sobre o espectro do primo, de quem nunca foi próximo, ergue-se um caldo de memórias feito de nostalgia, desilusão e mistério: Angola e a sua transição para a independência. É desse fantasma vivo e palpável que surgem relatos de vidas fragmentadas, tragicamente interrompidas pelos acontecimentos que se seguiram ao fim da guerra colonial, plenos de um fulgor simbólico que o fascina. O seu avô nutria uma profunda admiração pelo capitão Silva Porto, herói modelo de um Portugal imortal, personagem que apenas conhece a partir de uma biografia. A nostalgia promove figuras desaparecidas à condição de heróis. Sobre os escombros desses esquecidos recuperamos a história da própria humanidade. A escrita redime os atos, eleva-nos, preenche vazios e substitui afetos, reinventa-nos na história particular de cada um. O autor/narrador inicia a investigação sobre a morte do primo, deixando-se envolver pelo relato dos seus personagens. Os testemunhos recolhidos são uma partilha de vida e fonte inesgotável de experiências pessoais. Ao falarem, as pessoas deixam o anonimato e encarnam um destino coletivo, dos que não tendo conhecido a metrópole também regressaram à pátria mãe. Bruno Vieira Amaral não tem pressa, os traços do seu mundo são desenhados a partir de pormenores, pequenas histórias, gestos que nos dizem muito, indecisões, conselhos oferecidos de forma espontânea, e das cores com que cada um pinta a memória. Mais do que as fisionomias, são esses os traços vivos dos seus personagens. De olhar atento, escrita segura, maturando os relatos que vai recolhendo, conduz o leitor pelas idiossincrasias, sonhos, dores e desilusões dos que habitaram a sua infância e privaram com João Jorge. Os filmes e as séries de televisão, que misturam realidade e ficção num mesmo plano de horrores, são referências tão fortes como a experiência vivida. Uma memória coletiva que, se a idade o permitir, também é partilhada pelo leitor.

A aproximação póstuma a João Jorge propicia o confronto com a memória dos erros, castigos, vergonhas e ilusões, em relação aos quais se sente ausente. Uma quase necessidade de resolver alguns laços soltos ou omissos na sua infância, como quem afasta a sombra de uma culpa.

Os relatos recolhidos são a forma do autor, ocasionalmente, se libertar do discurso na primeira pessoa, entregando a narração a outra voz, sem que, no todo, se perca o timbre ou o registo da escrita vacile. Da consulta aos arquivos do tribunal realça a sua secura; para efeitos legais, apenas os fatos concretos interessam. A vida real é despida de pormenores, materializa-se de forma assética, não se detém no registo lento e curioso, próprios da ficção. Muito próximo do final do livro entramos finalmente na esfera íntima de João Jorge, não que seja demasiado tarde, nunca se chega tarde ao passado. Essa última aproximação dá-se quando percebemos não ter aquele homem salvação possível. Nenhuma ficção, nem a maior ou a mais transcendente, nos resgata. Não nos pertence oferecer o paraíso, não encontramos palavras que tenham esse dom, mesmo quando, como neste romance, a escrita atinge o sublime.

Quando se quer voar, todos os pormenores têm importância

sobre o livro

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