Todos os Dias Morrem Deuses | António Tavares.

Em plena guerra fria, Portugal vive no remanso de uma vida habitual assegurada pelo Estado Novo, protegido por costumes conservadores e uma atávica rejeição à novidade. A censura preserva os portugueses de sobressaltos nacionais. Perseguições, assassinatos, conspirações, purgas, espiões que revelam segredos de Estado são acontecimentos de um mundo distante, acontecem lá muito longe. Essa longínqua realidade confunde-se com a ficção, apela à imaginação para ser entendida e coloca um sério desafio a quem pretende escrever sobre ela.

 

Existe ali um mundo ou uma boa parte dele pronto a ser recriado, dentro de certos limites da discrição política. Uma realidade que não nos é próxima, existe muito para além da distância que mais nos atormenta, a que nos separa da aldeia da nossa infância. Para um jovem jornalista é um desafio. Qualquer exagero, arrufo de emoção, apenas contribui para valorizar a paz pachorrenta que se vivia no país. A censura revelava-se tolerante com essas notícias, a criatividade colocada pelos jornalistas era a melhor forma de contrainformação.

Enquanto o mundo buliçoso vai sendo criado pelo protagonista, um jovem jornalista em início de carreira, vamos conhecendo pelas cartas da mãe a vida intemporal da sua aldeia. Se Lisboa fosse uma miragem, como as notícias que vai escrevendo, dando largas à sua imaginação, o país seria a aldeia retratada nas cartas que recebe da mãe.

As purgas que se seguiram à morte de Estaline, com ascensão e queda de potenciais sucessores são um manancial que o protagonista explora com sentido de humor e acutilância. Todos os dias nascem e morrem deuses, em particular os que emergem dos homens. Que memórias recolhemos na nossa velhice? Por vezes, deparamo-nos com histórias onde não existe nada mais a dizer, a acrescentar. Anos mais tarde, o protagonista regressa à aldeia da sua infância em busca de um testemunho de inocência para o qual não tem mais palavras.

 Porque há frases dentro de nós que, com a idade, também já não vale a pena deixar escapar.

sobre o livro

Anúncios