Amália – A Ressurreição | Fernando Dacosta

Uníssona, a multidão rebentará depois em aplausos, desconcertando Amália, que se ergue, se dirige à varanda, se acena sob sorrisos em lágrimas. Milagres aconteceram-lhe sempre, que inexplicável lhe foi o destino – sempre.

Fernando Dacosta brinda as suas divas com uma escrita poderosa, elegante e de fina sensibilidade, conheceu-as como poucos, partilhou da sua intimidade, aturou-lhes excessos, amou-as. Foi assim com Natália Correia e com Amália. Neste livro deixa-nos um registo em forma de apontamentos, o essencial para descodificar a personalidade da cantora que marcou gerações de portugueses, se fez temida pelo regime ditatorial, sofreu com a revolução, mas foi resgatada pelo povo.

Amália sempre recusou alinhamentos políticos: Sou do povo por condição, sem orgulho nem pena. Hoje, renasce na voz de uma nova geração de fadistas.

O autor gosta de surpreender o leitor com revelações inesperadas como a troca regular de presentes entre o KGB e a PIDE, em jeito de remoque aos que não perceberam que muitos não estavam ao serviço do regime, mas ao serviço do país, através do regime… Os guerrilheiros palestinianos suspenderam um atentado em Beirute porque Amália atuava nesse noite. A irmã Lúcia, vidente de Fátima, escreveu a Amália pedindo-lhe que deixasse de cantar o Cochicho da Menina. Fátima é um ponto de crispação no autor, as pessoas que admira não podem soçobrar ao seu logro (acrescente-se, neste caso, Salazar e Natália Correia). A aparição dos anjos e de Nossa Senhora aos pastorinhos, são na sua versão um avistamento de entidades que, posteriormente, seriam descritas como “Nossa Senhora”, “Anjos” e “Anjo de Portugal”. Quase a refazer-se desse deslize laicista, afirma, mais à frente, que Lúcia aprendera em poucos meses, por indicação de Nossa Senhora, a ler e escrever. Com o passar dos anos, a Nossa Senhora recomendará à irmã Lúcia a utilização de um computador.

Salazar recebe sempre um desagravo de humanidade (curto e simples), surgindo aqui, pesaroso, a pedir ao banqueiro Ricardo Espírito Santo que ajude o poeta António Boto a exilar-se no Brasil, como se o Presidente do Concelho fosse impotente perante o monstro repressivo que criara.

Tal como sucedeu com Natália, encontra em Amália a capacidade de antecipar o futuro com genial acuidade (Amália sobre o futuro do Médio Oriente e Natália sobre o futuro da Europa).

Fernando Dacosta reconhece as suas fragilidades e não as esconde, vai mesmo ao ponto de as escalpelizar: Por opção, não se seguem nesta narrativa sendas biográficas comuns, nem históricas, nem cronológicas, nem documentais, mas notas de afeições, as permitidas pela subjectividade (desobrigada de contraditórios e de comprovas) inerente ao memorialismo libertário. Perante tão brilhante defesa o que se pode dizer? Que o rigor não acrescenta nada à memória de quem flutuante, pôs-se a caminho sem bússola nem mapa. Esta escrita, de uma elegância extrema, que se exprime através de narradores seduzidos, transcendidos pelo narrado, encontra no leitor a resposta emotiva, a adesão incondicional, o sorriso em lágrimas, como só a Amália despertava nas multidões. O nosso aplauso, o devido a quem tem fome de aplausos.

Os deuses deram-lhe alturas de incenso, mas a sua vida não

Os dedos naufragam-lhe na echarpe sobre o longuíssimo vestido negro. Levanta a cabeça, a voz eleva-se, eleva-a, vai aos abismos do indizível, assombrando os milhares que esgotam a terra onde ela pára a noite e a aflição.

sobre o livro

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