Rebeldia | Cristina Carvalho

É no romance de ficção, refiro-me à ficção sem o esteio da vida de um biografado, que a escrita de Cristina Carvalho se solta numa rebeldia de crua lucidez. Neste romance regressamos ao vastíssimo território da solidão no feminino, de mulheres em fuga à repressão masculina, uma fuga feita de resignação e sem destino, sem uns olhos azuis para diluir toda a dor e todo o desânimo. Mulheres que, enquanto jovens, arrastam um homem para as suas vidas, um esboço de desejo de homem, bem diferente dos maridos que conhecem às outras mulheres. Assim o desejam, ardentemente.

 

Arriscam tudo num raro momento de liberdade como se ignorassem que apenas trocam a vigilância dos pais e tutores, pela do marido. Com sorte, esse marido acabará por se extinguir nas suas vidas, tornando-se tão irrelevante como se tivesse partido em viagem, reduzindo-se ao mesmo incómodo que as hóspedes da pensão arrastam como maridos. Leninha cresceu nessa pensão, observando os pais afogueados nos seus afazeres diários para satisfazer os seus hóspedes. Elas a conversar, coçam a língua umas nas outras, acompanhadas dos respetivos maridos, maridos adereços, como peças de roupa fora de moda, mas que fica bem mostrar. E eles, os pobres, tristes, submissos, lacrimejantes e ofegantes, e suplicantes de coxas e de nádegas, os brilha maridos, sujeitões sempre a abrir, aqueles olhos a rolar, as línguas a fumegar, narinas a sacudir, as mãos que querem poisar, ele é nádegas e rabos e cus e mamas e beiços e beiças, um fio de baba a escorrer… Mas isso, é já uma recordação de adulto, que no mundo da infância tudo se descobre e se explora sem maldade nem estranheza. Mundo repleto de cheiros que nos marcam, gestos que se repetem, avisos, histórias às quais não podemos regressar: as nossas memórias nunca se iniciam no mesmo ponto.

A autora, antes de entregar a narração ao seu personagem, avisa-nos que tudo se confunde, a infância, as coragens, os desânimos, as derrotas, as vitórias. A essa lista, o leitor acrescentará o desejo de fugir: as fugas desejadas e ensaiadas como um gesto rotineiro, tão banal como passar a ferro, preparar o jantar, apanhar o miúdo que regressa da escola. Imaginar o marido ausente, sumido e que não volta mais, talvez um dia, quem sabe, lá bem distante. E o tempo a transformar-nos na gentinha provinciana e triste, a mesma de que fugíamos quando éramos mais novos. Até que a própria fuga se reduz ao esboço de um ato de rebeldia, inconsequente.

Na pensão dos pais, a Leninha gostava de brincar nas pocilgas, sentir-lhes o cheiro, chafurdar na lama, observar a fome devoradora dos porcos, animais que lhe parecem insaciáveis, mas que se acalmam depois de comer. Aliás, acabei por verificar a mesma coisa com os homens: depois da sua fome devoradora, mais nada de especial acontece.

Uma escrita no feminino da qual se desprende uma maldade arrancada às profundezas do ser humano, visceral, indómita e rebelde. A liberdade da mulher nunca foi um território pacífico.

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