Pussy | Howard Jacobson

Imaginem uma república protegida do mundo exterior por altos muros, governada por um grão-duque, cujo filho, o Príncipe Fracassus, é um miúdo enxuto e venerado por todas as qualidades que não possui, educado por professores universitários que foram despedidos por excesso de conhecimento e pelo péssimo hábito de corrigir os alunos. Imaginem só, porque não encontrarão qualquer semelhança com a realidade…

 

Num mundo liberal, onde os mais bem preparados podem ser acusados de condescendência cognitiva, abre-se a oportunidade para um grande comunicador, alguém que, ao desconhecer o significado da maioria das palavras, não se deixa influenciar por elas; alguém cujo reduzido vocabulário lhe permite apenas articular ideias simples onde exprime emoções primárias (triste, tão triste, tão gratificante, cheio de classe), ou indicações precisas de ação (vamos construir um muro). E quando alguém o alerta para o facto de já existir um muro, contrapõe: vamos construir um ainda maior. O fato de Fracassus não reparar em ninguém ou demonstrar qualquer simpatia apenas reforça o seu carater e demonstra a sua autossuficiência e vida interior de grande riqueza. O professor Probrius apercebe-se do elevado potencial do seu pupilo e, não querendo perder o emprego, encarrega-se de dar conta ao grão-duque das elevadas expectativas que tem para o Príncipe. Com tão tenra idade, Fracassus já se estava a tornar uma inspiração, um exemplo para as pessoas daquilo que a ausência de instrução era capaz de alcançar. Um exemplo de como o mais improvável e incompetente dos seres para realizar uma determinada tarefa podia transformar-se na pessoa ideal para a executar.

O fraco domínio das palavras não deve preocupar o grão-duque, afinal, nunca é de mais referir a enormidade do choque, para qualquer criança, de ter de deixar de apontar para passar a identificar. A intrusão do conhecimento na esfera pessoal é sempre uma forma de agressão. Depois, quando se nasce um Príncipe porque se deve aceitar a sabedoria dos que lhe são de condição inferior? E, finalmente, existe a sociedade em crise, à espera de um líder que a retire do atoleiro. Demasiados anos a promover direitos em vez de deveres, gerou uma sociedade de pessoas conscientes da sua exclusão social, de pertencer à classe maioritária dos esquecidos e, portanto, gente insatisfeita e sem voz. Fracassus era um bálsamo, ele não entendia o que o mundo podia ser, mas sabia o que podia ser no mundo. Afinal, as pessoas não tinham capacidade para apreender ideias com mais do que 140 carateres de um tweet!

Num sentido de humor irrepreensível, lúcido e sem concessão à paródia fácil ou à caricatura jocosa, Howard Jacobson deixa-nos um retrato mordaz da nossa sociedade e de como o menos apto de todos nós chega à liderança da maior potência mundial. Muitos farão o seu mea-culpa.

sobre o livro

citação

Anúncios