Jornada de África | Manuel Alegre

Esta é a história do alferes Sebastião e de um Alcácer Quibir do avesso, de como os homens se perdem de vista quando a morte os surpreende. O ato de loucura de um povo que leva a morte além-mar, pela força das armas e obstinação de um velho cacique, pelo direito histórico, inalienável, de fazer suas as terras de outros povos. O alferes Sebastião marcha com a única lucidez possível, pela honra de não se furtar ao destino que foi imposto à sua geração, obrigando-se, contudo, a refrear todos os excessos, denunciando-os se tal fosse o caso.

 

Um tempo de campos extremados, opostos, onde os poetas que não cantam a necessidade urgente da revolução são menosprezados pelo seu esteticismo pequeno burguês. O romantismo político de acreditar numa revolução fora da disciplina partidária, nascida da consciência coletiva de um povo que se ergue contra a opressão. A revolução como um absoluto, um sucedâneo do Deus perdido na adolescência. Uma nova harmonia, tão urgente, que podia nascer das cordas da guitarra mais áspera, mais rude, quase dissonante. Em Portugal, o velho ditador teme as palavras, em particular as que invocam o seu nome, e ordena: para Angola e em força; são os mancebos do seu país quem sacrifica, fez as contas, achou que valia a pena.

Chega a Angola o alferes Sebastião, sente estar no tempo errado, uns séculos antes e teria o privilégio de ser o primeiro a pisar aquela terra desconhecida para os portugueses. Pensa, pela primeira vez, que ninguém volta de Alcácer Quibir. Os guerreiro vêm de longe e trazem consigo as suas histórias que misturam com as memórias dos que os precederam na arte da guerra, sujeitos aos mesmos perigos. Morrendo uma e outra vez, até alcançarem o sentido da sua missão. Leva consigo as leituras que lhe aconteceram na vida, são parte daquilo em que se transformou; na poesia, encontra o desfecho dizível do que sente e não consegue explicar pelas suas próprias palavras.

Alcácer Quibir surge nesta escrita como uma memória inculcada, a perturbar o narrador, a recordar-nos que a história é a ficção que dela construímos. Quantos de nós somos personagens arrancados ao passado? Deslocados no tempo, na geografia e na sua fé. Apenas o coronel do pingalim surge como um homem a habitar o seu tempo e sem tempo para o adiar.

O Inimigo surge pela primeira vez de forma sub-reptícia, escondido, camuflado na própria escrita num simples tiros no pescoço; era essa a especialidade de Domingos da Luta, detectar onde, na coluna, se encontra o oficial, oferecer-lhe a morte certa, com a sua marca-de-água: um tiro no pescoço. Por duas vezes falha o tiro sobre o mesmo homem, quando o encontra, cara a cara, sabe que a vantagem é sua: nenhum homem pode matar a sua morte.

– O nosso alferes – repete o furriel.

E já não o vê.

 

Jornada de África, de Manuel Alegre, 4ª edição 2017 (1ª edição 1989), D. Quixote. O primeiro romance do autor.

sobre o livro

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