Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa | Miguel Real

Um país suspenso no tempo é um país que não se realiza, habitando uma excitação mental vazia de estímulos de orgulho, para a qual um pequeno feito (uma vitória numa competição internacional) sabe a triunfo imorredouro.

No português subsiste a consciência lúcida de que Portugal teve o “mundo na mão” e o perdeu por cobiça mercantil ou por desleixo, vendo outros povos tomar o seu lugar nesse mundo descoberto e na história. Em cada um de nós vive o assombro de nos sentirmos insignificantes depois de nos termos sabido gigantes na descoberta da totalidade do mundo. Aí reside a esperança de que o passado longínquo nos salve. Aí nasce a raiz salvífica: o facto de termos sido.

Ao longo da nossa história, o Estado nunca se preocupou, pelo menos de forma consistente, em conservar o conhecimento. Em todas as épocas criou forças repressivas do pensamento para vigiar a sociedade e sobretudo os que se lhe opunham ou abraçavam ideias diferentes. Marquês de Pombal, sequioso de vencer o atraso civilizacional de Portugal em relação às outras nações europeias, expulsa os Jesuítas, confiando a missão de ensinar os portugueses aos estrangeiros que convida a instalar as manufatorias de que o país carece (mais recentemente, Sócrates fez o mesmo, procurando vencer a distância que nos separava da Europa, através da qualificação dos portugueses). As elites reitoras do Estado acreditam esgotar em si o papel impulsionador da história. Concentram-se em Lisboa, aí instalam a sua corte, e do Tejo fazem a sua estrada, a única que podem tomar – todas as outras conduzem ao interior do país que rejeitam. Só lhes resta partir Tejo afora.

O temperamento rural do nosso povo explica a centralidade da nossa história na expansão territorial, à qual está associada a nossa noção de que “fomos grandes”. Essa expansão geográfica centrou-se numa busca/esperança de encontrar, além-mar, uma riqueza fácil e célere. A árvore das patacas acentuando o carácter lírico dos portugueses; por exemplo, quando confrontado com a história da conquista do Oeste Americano que impunha, à maioria, o trabalho árduo de mineiro ou de agricultor.

Miguel Real identifica quatro constantes culturais: a Origem Exemplar ou mito viriatino, baseado na imagem de Viriato, herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro; Nação Superior ou mito vieirino, do padre António Vieira, país que de novo cruzará os mares – agora do espírito e da cultura, falhados que foram os reais – tornando-se de novo grande; Nação Inferior ou mito pombalino, baseado na visão do Marquês de Pombal que considerava Portugal, país em permanente estado de inferioridade civilizacional, nada lhe faltava para ser igual aos restantes caso se alterasse drasticamente o perfil das suas elites, insuflando-lhes um banho de Europa; Canibalismo Cultural, atravessando mais de 400 anos da nossa história, iniciando-se em 1890, definido como o tempo da culturofagia, o tempo em que os portugueses se foram pesadamente devorando uns aos outros, cada nova doutrina emergente destruindo e esmagando a(s) anterior(es), estatuídas como inimigas de vida e de morte, alvos a abater, e as suas obras como negras peçonhas a fazer desaparecer.

As duas faces da suspensão do tempo histórico Europeu em Portugal, emergem da alternância entre o complexo vieirino (da magnificência) e o pombalino (da inferioridade civilizacional face aos outros povos europeus), e levam muitos estrangeiros a considerar ser da índole dos portugueses dedicar-se ao devaneio lírico. Essa capacidade de devaneio aliada à ausência de um acerado realismo objectivo está na base de espantosa adaptabilidade portuguesa a novos meios e a novas situações, génese do desenrascanço português.

Miguel Real deixa-nos aqui uma obra fundamental que nos permite conhecer o pensamento português, escrutinador da nossa identidade e da nossa vocação de país situado no extremo da Europa, e deixa-nos as ferramentas com que podemos dissecar o nosso tempo. É fácil identificar qual dos complexos é o motor de cada ciclo da nossa história (Estado Novo, complexo viriatino, Sócrates, complexo pombalino, regressando ao complexo viriatino com Passos Coelho e a tutela da troika, e o complexo do canibalismo responsável pela nossa incapacidade em assumir compromissos de regime, transversais às diversas forças políticas). Sempre estimulante, o autor cultiva um olhar irrequieto sobre a nossa história numa escrita acessível, bem documentada e abrangente das diversas correntes do pensamento português. Uma obra de leitura indispensável.

De 1890, data do Ultimatum inglês, a 1980, data da assinatura do pré-acordo de adesão à Comunidade Europeia, Portugal habitou o fundo dos fundos da Europa (…) onde conviviam majestaticamente a ignorância cultural, o atraso científico e a miséria económica.

sobre o livro

entrevista com Miguel Real sobre este livro

 

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