Em Queda Livre | William Golding

De uma forma não linear conhecemos a história de Samuel Mountjoy, e de como se portou face aos seus carrascos. Prisioneiro de guerra num campo alemão, Mountjoy é levado à presença de Halde, o oficial nazi que não gostava de magoar as pessoas. Halde pretende informações sobre uma fuga que desconfia estar iminente. Mountjoy sabe que não consegue resistir à tortura; desses momentos guarda a forma educada e polida com que Halde se lhe dirige, as dimensões reduzidas da sua cela, a escuridão da sua cela e do terror que se apodera dele.

O que leva um homem a quebrar? Não pode ser apenas um instante de dor. Exige-se uma outra explicação, uma mais complexa e que se esbata no tempo. Tudo começa no seu fascínio por Minnie, a menina que o acompanha no caminho para a escola primária. A excursão com Johnny à pista dos aviões, a sua primeira incursão no mundo proibido dos adultos. A primeira namorada, a descoberta do talento para desenhar, tudo alinhado sem ordem nem precedência. O tempo não pode ser assente de forma linear como uma fiada de tijolos.

Nenhum homem é uma criatura instantânea, é antes o carrego de memórias filtradas pela retrospeção de adulto. Só as árvores crescem quando ninguém está a olhar.

O tom da escrita de Golding assenta na perfeição sobre mundo difuso em que envolve as suas memórias numa balburdia. Uma criatura de descobertas só deve alimentar-se do que desconhece. A instabilidade para a qual procura uma resposta confunde-se com a busca do ponto exato em que passou a ter medo do escuro. O banho dado pela senhora Pascoe, o padre que apaga a luz do quarto deixando um mistério a pairar na escuridão, o carrasco com o seu lado evangelizador em busca da verdade. O prisioneiro transportado ao pináculo do templo a quem é mostrada a terra inteira, para que a sua recusa abra o caminho ao algoz. A proximidade que esbate o desejo do predador e lhe rouba o ímpeto. Somos verdadeiramente livres? Esta é a história de uma dor, a do prisioneiro que quebra e não conseguindo viver com essa culpa, busca no passado o momento em que na sua vida deixou entrar a escuridão. De nada nos serve o exercício da memória se não formos um bom contador de histórias.

Era uma vez um tempo em que eu não tinha medo do escuro e mais tarde passei a ter.

Só conseguimos fixar a realidade que nos surge de forma coerente, de nada serve interpelar os nossos fantasmas sem os compreender. Afinal, só na memória revisitamos a perda da nossa inocência, nós, os culpados em queda livre.

Os meus dias de ontem caminham comigo.

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