O Inspector da PIDE que morreu duas vezes | Gonçalo Pereira Rosa

A história do jornalismo, até ao 25 de Abril, é marcada pela ação repressiva do Estado sobre o pensamento livre através do controlo da informação. A censura agia de forma direta ou condicionava as opções. A forma e o texto das notícias eram sujeitas a escrutínio, obrigando os jornalistas a soluções imaginativas ou gerando equívocos quanto à boa fé de alguns deslizes. Hoje, cortadas que estão as amarras da censura do Estado, outros constrangimentos surgem: a industrialização dos jornais promove o patrão-empresário, que paira como uma sombra sobre as redações, ao papel do novo censor.

 

Tal como no primeiro livro, encontramos exemplos de uma escrita recheada de apontamentos de notável qualidade literária que marcam esta literatura apressada que é o jornalismo. A liberdade criativa de vestir a realidade de aspetos imaginários, resgatando-a à mesquinhez da verdade, executada com mestria, confere às notícias um brilho que prende, informa e delicia o leitor. O atrevimento leva Arthur Portela a transformar um encontro com Churchill, numa entrevista em que, precocemente, o aponta como putativo líder do mundo livre. Portela, sem fugir ao relato objetivo, não deixa de florear um pouco a sua prosa, referindo-se à voz da secretária como: mel em fio, escorrendo oiro do favo dos lábios.

Ou como este pedaço de prosa que ilustra o relato de uma viagem num dos submersíveis da marinha: cortando as deliciosamente azuis águas do Tejo, onde se reflecte, policroma e pitoresca, a massa compacta da casaria. Um estilo de escrita que se perdeu no apressado jornalismo dos nossos dias, privilegiando a opinião em detrimento da informação. Neste relato encontramos um país que procura refletir-se no que de mais avançado existe no mundo ocidental, e que, apesar dos cuidados da censura, se revela um anacronismo no espaço europeu. Dos dois submersíveis da marinha, apenas um está equipado com um periscópio que lhe permite ver o céu na vertical, denunciando que são tão obsoletos que têm origem num tempo em que os aviões ainda não existiam.

A ditadura procura proteger a figura de Salazar, o seu ativo mais valioso. O excesso com que o faz, fragiliza a imagem do ditador, expondo-o ao ridículo de trocadilhos, uns inocentes, outros menos. Um simples anúncio a uma casa comercial, maldosamente colocado como rodapé do seu discurso, pode gerar uma risada geral e transformar-se num caso sério de ameaça à segurança nacional.

No prefácio, Pinto Balsemão refere que o autor revaloriza e reabilita o papel dos jornalistas, tendo-os colocado no devido lugar, pelo seu talento, coragem e persistência. Gonçalo Pereira Rosa especializou-se a contar estórias dos outros com o rigor que só a cuidada recolha de testemunhos e de documentos permite. Fá-lo de uma forma não linear, trabalhando o tempo de cada história e a sua sequência para prender o interesse do leitor até ao fim. Muitos dos testemunhos que recolhe são peças de inegável valor humano e histórico que marcam uma época em que o carácter dos homens foi a maior das armas contra a opressão. Não nos oferece um panegírico sobre o jornalismo, aqui se narram atos menos nobres, erros e deslizes, a par de grandes momentos. De como foi duplamente difícil ser jornalista e mulher, e como estas conseguiram superar a desconfiança e o paternalismo dos colegas masculinos, impondo-se por mérito próprio. A época de ouro das rotativas terminou, mas não o seu fascínio, como se prova neste livro de forma brilhante.

sobre o livro

Anúncios