Na Vertigem da Traição | Carlos Ademar

Este romance, baseado em factos reais, conta-nos a história de Miguel Domingos um ativista da revolta de 34 na Marinha Grande, que acompanhamos ao longo da sua vida, desde a passagem pela escola, na Rússia de Estaline, à guerra civil em Espanha, passando pela resistência francesa à ocupação alemã, até ao momento em que cai em desgraça no diretório do partido comunista e acaba assassinado numa mata em Sintra. Carlos Ademar tornou-se um exímio documentalista do Estado Novo, das suas práticas e das suas vítimas, dos que serviam o regime e dos que se lhe opunham. A sua veia de ficcionista complementa esse registo criando uma linha condutora que prende o leitor, e a sua experiência como ex-inspetor da Polícia Judiciária permite-lhe, com perícia, alimentar o desenrolar da intriga, indispensável a uma história bem contada.

 

O homem real que serviu de base ao personagem de Miguel Domingos teve uma vida invulgar: de ativista a dirigente comunista, ganha experiência na clandestinidade portuguesa, onde aprende as técnicas de organização e fuga à vigilância policial e na guerra civil de Espanha aprende as técnicas de combate. A experiência acumulada permite-lhe liderar uma célula da resistência francesa à invasão alemã. Curiosamente, essa opção, quase natural de combater os nazis, foi condicionada pelo dever de lealdade ao internacionalismo, que se sobrepunha ao patriotismo, e amarrava os comunistas ao pacto germano-soviético assinado entre o camarada Estaline e Hitler. Só em 41, com a invasão da Rússia por parte dos nazis, os dirigentes comunistas aderem abertamente à resistência francesa permitindo uma mais eficiente coordenação entre as diversas células de resistentes. Alguém, como o protagonista, que atravessa todos os cenários de combate ao fascismo na Europa é de um valor ficcional que Carlos Ademar sabe explorar muito bem.

Comunista convicto, Miguel Domingos procura acompanhar a linha do partido, com lealdade e sentido de combate. O sucesso acaba por ser a sua perdição, ao nunca ter sido preso e ao participar na bem-sucedida fuga do dirigente comunista Pavlov, levanta suspeitas sobre a sua real identidade: seria um agente duplo? Um partido que consagra a vida à clandestinidade e é perseguido por uma força policial fortemente repressiva, não pode correr riscos. Os que sofriam de perda de perspetiva, tinham de ser afastados e impedidos de usar velhas amizades ou lealdades para criar movimentos divisionistas. Vivia-se numa permanente vertigem de traição.

Tudo pela Nação, nada contra a Nação, era a marca de água que orientava os serviços do Estado; uma porta aberta para subverter os mais elementares direitos humanos, subjugando-os a um imperativo maior. O Estado de Direito suspenso no tempo. Nem todos cediam a esta linha de pensamento. O inspetor Guimarães da Polícia Judiciária está entre os que distinguem os crimes de sangue dos crimes políticos. A presença quase tutelar da PIDE, limita o campo de ação ao inspetor, mas é dento da própria PJ que nascem os maiores entraves. Existe quem siga a máxima de tudo pela nação, em detrimento dos critérios científicos a que uma investigação policial se deve submeter. Os deveres de lealdade cega aos desígnios do velho ditador arrastam consigo as inevitáveis purgas dentro do próprio Estado. Guimarães também sofre as agruras de quem cai em desgraça.

Carlos Ademar deixa-nos aqui a história de alguém que desafia e supera a ficção. Combatente disciplinado e fiel aos seus princípios, sem nunca perder o sentido de justiça, Miguel Domingos é o retrato fiel do tipo de homem cuja história as organizações gostariam de apagar, com se extinguindo alguém no tempo se extinguisse com ele a memória desse tempo. A maior das traições é o esquecimento.

sobre o livro

 

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