Não era difícil viver naquela fábrica: difícil era trabalhar ali, por causa de todos aqueles empecilhos. Mas a solução era simples, bastava não trabalhar. Ela (Giulia) apercebera-se disso rapidamente e, num ano, modéstia à parte, não fizera quase nada; pouco mais fazia do que morar os aparelhos de manhã, e mais para satisfazer o olhar, e desmonta-los à tarde segundo as recomendações, os relatórios diários fazia-os com a imaginação.

 

Naquela altura eu era ainda tão jovem que ainda pensava ser possível fazer um superior mudar de ideias; por isso avancei duas ou três objeções, mas vi de imediato que o Comendador, devido aos golpes provocados por estas objeções, ficava rígido como uma lâmina de cobre debaixo de um martelo.

Quando contei a Giulia o resultado desta pequena conversa, a sua opinião foi repentina e ressentida: o velho é maluco. Mas fora eu que o provocara descendo ao seu terreno e mostrando leva-lo a sério desde o início: era bem feito que agora tivesse de me desembaraçar com as açucenas, o fósforo e os coelhos. Segundo a opinião dela, toda aquela minha mania de trabalhar, que até conseguia prostituir-me nas patranhas senis do Comendador, resultava do facto de não ter namorada…

O Sistema Periódico, de Primo Levi, 4ª edição, D. Quixote, 2017

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