O sistema Periódico | Primo Levi

Este livro abre com o Argon, um dos gases raros, nobre e inerte, pretexto para uma reflexão sobre a natureza humana; se nobre e inerte se fundem da mesma forma no carater dos homens. A química é a ciência da matéria, da sua transformação e do seu domínio. Este universo não se faz de verdades reveladas, mas do que se demonstra, do conhecimento científico provado em laboratório entre vidraria, calor, fumos e odores penetrantes. Alguns desastres também. O conhecimento sempre foi o melhor antídoto contra os regimes absolutistas; quem conhece o coração da Matéria dispensa-lhe o espírito. Mas, devem os seres raros dar-se a revelar ou permanecer reservados e indetetáveis como os gases nobres?

 

A mente do autor observa e permanece atenta, sempre em elaboração, sofrendo com os limites da condição racial imposta aos não arianos, a guerra, o fascismo, a resistência e o campo de concentração. O ser humano como cobaia, a ser experimentado e a libertar-se, que é da condição humana sobreviver e, depois, ser livre. A química e a sua ordem, a hierarquia dos materiais alinhados na tabela do Sistema Periódico, uns funcionando como base a partir da qual tudo se transforma, outros assumindo seu papel de reagentes, alguns construindo pontes entre a matéria original e a substância transformada. São histórias em que a matéria néscia manifesta uma astúcia que se estende até ao mal. Histórias da química artesanal, com gente dentro e laboratórios dos quais não se pode sair apenas um pouco mais velho do que antes de entrar. O sabor forte e amargo desta profissão onde o químico solitário vence a matéria, pela observação atenta e pela paciência, tal como o sonho de evasão de um prisioneiro o impele a sobreviver. No penúltimo capítulo temos a resposta à pergunta inicial: ninguém a coberto de pretexto algum pode permanecer indiferente ao seu tempo, que os armados existem, constroem Auschwitz, e os honestos e inermes preparam-lhes o caminho… depois de Auschwitz já mão é lícito ser inerme.

Primo Levi deixa-nos o seu testemunho de químico e de homem, alguém que toda uma vida procurou a ordem por que se rege a matéria e foi vítima da ordem errónea dos homens. Uma visão lúcida e humorada num registo literário que se aproxima da poesia. Um humanismo que nos reabilita, que regressa aos elementos mais puros e perenes do ser humano.

A nossa ignorância permitia-nos viver, tal como estamos na montanha e a corda está gasta e prestes a rebentar, mas nós não sabemos e prosseguimos a escalada.

sobre o livro

 

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