Cães de Caça | Jørn Lier Horst

Neste livro encontramos o detetive William Wisting debatendo-se contra a acusação de falsificar as provas que levaram à condenação, dezassete anos antes, de Haglund pelo rapto e homicídio de uma jovem. A notícia da acusação de que é alvo vai ocupar toda a primeira página do VG, jornal onde trabalha Line, a sua filha. A ocorrência de um homicídio, nessa mesma noite, abre a Line a oportunidade de remeter a notícia sobre o pai para as páginas interiores. Inicia assim uma luta contra o tempo para conseguir uma história com a força de uma primeira página.

 

Suspenso enquanto decorre o inquérito movido pelos assuntos internos da polícia, Wisting dedica-se a rever o caso, repassando os documentos em arquivo. Não tarda a convencer-se da veracidade da acusação: alguém da sua equipa falsificara a prova decisiva que incriminara Haglund. Se no primeiro título publicado em Portugal a ação decorria em torno do tema das desigualdades sociais na Europa e na emigração ilegal proveniente dos empobrecidos países de leste, aqui estamos perante as questões da ética e honestidade. As opções profissionais e os sacrifícios feitos em prol de uma carreira ocupam também o seu espaço na trama. Deparava-se (Line) cada vez mais frequentemente com mulheres da sua idade que tinham avançado mais na vida do que ela.

A escrita segue o já habitual formato do autor, a ação centrada nos diálogos, fisionomias descritas com traços curtos e precisos, os ambientes a contaminar a atmosfera onde decorre a ação, capítulos que não se alongam e, sobretudo, homens e mulheres comuns ameaçados por um evento que quebra as suas rotinas. Em Horst não encontramos o super-detetive, nem o anti-herói, apenas a banalidade do dia-a-dia perturbada por acontecimentos extraordinários e inesperados. Os capítulos abrem, invariavelmente, com a descrição do ambiente, com preponderância para os elementos atmosféricos que marcam o tom da narrativa. Sob pressão e sentindo-se alvo da desconfiança dos colegas, Wisting acaba por ver a sua relação com a companheira afetada. Um tom nubloso surge como o mais adequado para descrever as cenas que lhe são dedicadas.

Wisting alinha uma lista com os nomes dos colegas que podiam ter falsificado as provas. Na mente do leitor, um nome surge como o mais provável quando o autor deixa no ar, de forma subtil, uma motivação. O desfecho da história é bem conseguido sem recorrer a nenhum artifício que desiluda o leitor. A investigação de Line, sob a pressão da hora do fecho da edição, leva a jornalista a valorizar certos pormenores secundários, iludindo o seu fraco valor para a informação do público. A pressão colocada pela urgência da notícia a fazer-se sentir desta vez não sobre o trabalho policial, mas sobre o próprio jornalista. A informação, tal como a ficção, tem a sua própria atmosfera. A foto do corpo do homem assassinado, ainda com o cão preso pela trela, merece a aprovação de Line: Era uma fotografia pungente, e o asfalto negro no fundo, constituía, por outro lado, o local perfeito para colocar um texto. A estética a sobrepor-se ao rigor assético da informação.

Escrito em 2012, as questões religiosas como motivação para um homicídio são tipificadas como sendo de exclusão, enquanto o fanatismo fica reservado aos casos de honra e vergonha. Nos dias de hoje a geometria desse léxico alterou-se significativamente. À semelhança do título anterior publicado pela D. Quixote, Fechada para Inverno, existe uma nota introdutória com uma breve biografia do detetive William Wisting que permite ao leitor ficar a conhecer o protagonista e o núcleo restrito de pessoas que o rodeiam.

Cães de Caça é um thriller eficaz que proporciona uma leitura empolgante, e mesmo alguém, como eu, que não é adepto do género, se deixa viciar na sua leitura.

um silêncio gelado enchia o espaço como um nevoeiro invisível.

sobre o livro

Anúncios