Raparigas Mortas | Selva Almada

Andrea entrou na vida da autora através da notícia da sua morte: uma rapariga havia sido assassinada na cama enquanto dormia no seu quarto, …a casa de qualquer adolescente, não era o lugar mais seguro do mundo. Selva Almada narra aqui o femicídio de três raparigas, como viveu essa experiência e conduziu o processo de escrita do livro, aproximando-se daquelas raparigas mortas. Uma narrativa não ficcionada, que nos revela o papel da mulher na sociedade argentina de finais do século XX, em particular das raparigas mais pobres, das quais se esperam favores a troco de dinheiro.

 

A autora tinha 13 anos na altura da morte de Andrea. Provavelmente, tê-la-ia varrido da memória se ela não regressasse a cada notícia de mais uma mulher assassinada; pelo namorado, pelo amante ou por outro qualquer homem que a surpreendeu num momento de vulnerabilidade. Espancadas, violadas e mortas. Tornam-se elegíveis a partir do momento em que começassem a deitar corpo, corpo de mulher; a pobreza é a segunda armadilha. Não existe nos três casos apresentados pela autora indícios do ato de perversão; essas mulheres não foram vítimas de um tarado sexual. Após o choque, chega o ajuste de contas (que leva vizinhos a denunciarem-se), os testemunhos falsos (que visam apenas a satisfação de se encontrar um culpado), tudo isso numa sociedade que aceita como normal toda essa violência. Contam-lhe que, numa cidade do interior, os rapazes têm uma “brincadeira” a que chamam de fazer um bezerro. Ninguém parece dar-se conta do que isso representa na vida das raparigas marcadas, nada que não se resolva com algum dinheiro.

As mães recorrem à figura do Sátiro, uma espécie de homem do saco, só que neste caso, são as meninas que andam sozinhas e fora de horas as que são levadas. O perigo entra no imaginário popular, torna-se numa entidade com corpo, embora sem rosto, uma vez que este pode assumir feições bem familiares. Uma cultura subordinada à vontade do macho e aos seus apetites, a normalidade social construída a partir dessa realidade. Era demasiado bonita para que o marido a mandasse outra vez trabalhar como criada. Tanta beleza desperdiçada entre os vapores dos produtos de limpeza. Por isso mandou-a prostituir-se.

O relato numa escrita simples e cuidada, oferece-nos uma narrativa ficcionada de acontecimentos verídicos, modalidade de que Truman Capote foi pioneiro, mas a semelhança termina aí. Este livro, na sua forma e na sua escrita, no retrato que faz de sociedade, não se assemelha ao romance A Sangue Frio. Selva Almada tem a uma voz própria e usa-a com determinação e coragem.

Talvez seja essa a tua missão: juntar os ossos das raparigas, montá-las, dar-lhes voz e depois deixá-las correr livremente até onde tiverem de ir.

sobre o livro

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