Nada | Janne Teller

Um miúdo, no sétimo ano do liceu, abandona a escola por ter chegado à conclusão de que não valia a pena fazer nada, porque de qualquer forma nada tinha significado. Pierre Anthon decide viver numa ameixieira.

Não conformados com a situação, os colegas tentam demovê-lo da ideia recorrendo a toda uma série de argumentos que o convençam a descer da árvore e regressar à escola. Quando os confronta com a falta de sentido da escola, respondem-lhe que eles, os que frequentam a escola, iam ser algo na vida, acabando confrontados com essa ideia vaga de ser algo na vida, de ser alguém.

 

Esgotados os argumentos mais pertinentes, os colegas de Pierre Anthon decidem atirar-lhe pedras para o forçar a descer da ameixeira. Perante a irredutibilidade de Pierre e do que ele podia representar nas suas consciências arrumadas, decidem provar-lhe que a vida está cheia de coisas com sentido e decidem reunir uma série de provas. Cada um deve contribuir para o monte do significado com algo importante, algo de que tenha dificuldade em separar-se. Para que não haja batota, quem dá o seu contributo para o monte escolhe o que o miúdo seguinte deve renunciar. No início tudo se desenrola com alguma ingenuidade, até que as cedências começam a subir de tom, a serem cada vez mais cirúrgicas, pensadas para desencadear o maior incómodo no visado. Sentimentos mesquinhos entram em jogo, com a vingança à cabeça. A busca pelo significado leva os miúdos a desenvolver entre si as desconfianças e a malícia típica dos adultos, tornando-os particularmente cruéis, uma vez que ainda não dominam o jogo da dissimulação. O monte do significado transforma-se numa pilha sacrificial que vai crescendo. Provar a existência de algo com significado é a desculpa para que o visado não se furte à renúncia pedida. Até onde pode ir a crueldade quando pensamos em grupo?

A escrita de Janne Teller é de uma fria simplicidade, nenhuma moral, nenhuma explicação ou atenuante nos é oferecida; as coisas são relatadas tal como vão acontecendo; em todo o livro só encontrei uma única metáfora. A recolha para o monte do significado vai revelando os aspetos mais negros de cada um daqueles miúdos e do que são capazes de fazer em grupo. A forte motivação partilhada por todos, dispensa-os da orientação de um líder. Mais do que pertinência para o monte do significado, é a maldade que vai tomando conta das escolhas e estabelece uma hierarquia entre os miúdos: O que ninguém estava a prever era que Frederik fosse capaz de ser mauzinho. Mas o facto é que ele subiu muito na nossa consideração…

Estabelece-se uma ordem nos pedidos de renúncia que se estende muito para além da ideia inicial de convencer Pierre Anthon a descer da ameixieira, esse objetivo já não passa de um eco remoto de como tudo começou. A jogo entra tudo o que devia ficar fora do monte do significado: a batota, a dissimulação, o desejo de vingança, a insensibilidade ao sofrimento do outro. A violência patente nas relações sociais dos adultos acaba por ser incorporada, e tudo em prol da luta pelo significado das coisas. O desejo de mover montanhas pode-nos ser fatal. E como reage o mundo dos adultos quando descobre o monte do significado? Isso não posso antecipar aqui. Nada é uma parábola forte, original e perturbadora sobre a descoberta do sentido da vida.

Mas eu compreendia facilmente que ele tivesse de ir para a pilha. Um irmão mais novo era sempre importante, mesmo que não fosse assim tão amado.

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