Para lá da “Geringonça” | André Freire

As alianças políticas em Portugal alicerçam-se mais na personalidade das suas lideranças do que no posicionamento ideológico dos partidos, esta é uma história marcada pelas afinidades e sensibilidades dos seus protagonistas. Mário Soares, desconfiado das derivas ideológicas do PCP (evidenciadas durante o PREC), vê-se condicionado a rejeitar qualquer acordo que viabilize um governo minoritário PS/PRD com o apoio parlamentar do PCP; em Abril de 1987, após a queda do governo minoritário do PSD na sequência de uma moção de censura apresentada pelo PRD.

 

Mesmo quando, ao nível do poder local, as esquerdas se entendem para viabilizar executivos municipais, isso não é transportado para o poder nacional. Essa desconfiança só será ultrapassada em 2015, e muito pela chegada de novas caras, quer ao PS quer ao PCP e aos partidos da esquerda radical (PER): uma geração que não vivenciou esses dias (do PREC) e que, não estando marcada por essa espécie de trauma genético, poderá ter contribuído para criar as condições para alcançar tal acordo. Uma geração que finalmente consegue enterrar as desavenças históricas entre PS, PCP e PER. A direita, livre desta carga genética e sem as reservas mentais que encontramos à esquerda, consegue entender-se em soluções de governo, arrastando consigo, frequentemente, o PS. Noutros casos, não encontrando apoio parlamentar à esquerda, é o PS que se vê forçado a fazer alianças à direita. A pouca diversidade programática dos partidos e o papel pouco inovador das soluções apresentadas ao eleitorado, tem conduzido Portugal a uma governação conservadora e pouco inclusiva, potenciando uma cartelização do sistema político e económico, com uma grande circulação das elites dos partidos do tradicional “arco do poder” entre a governação e a gestão das grande empresas.

A aplicação, por parte da direita, de uma austeridade fortemente assimétrica, abriu a possibilidade de entendimento às esquerdas, como forma única de reverter algumas das medidas mais penalizadoras para quem vive do trabalho, e recuperando a situação social de extrema pobreza a que muitos portugueses se viram reduzidos. A abertura do BE para o efeito, surge nas legislativas de 2015 quando, em pleno debate com António Costa, Catarina Martins lança um caderno de encargos não maximalista, pragmático e realista, para um entendimento com o PS, o que criou condições para, mais tarde, arrastar o PCP-PEV para o mesmo barco, ou, para usar um termo mais apropriado, para a geringonça. A esquerda apercebeu-se que o protesto pode ser tão ou mais penalizador eleitoralmente do que a participação em soluções governativas.

A Geringonça trouxe a novidade de uma solução de governo que resultou de um compromisso à esquerda e em que o partido vencedor das eleições não participou nesse processo. Essa solução não representou o fim da austeridade mas acabou com o seu carater assimétrico, devolvendo poder de compra às pessoas e revertendo algumas políticas de cariz mais liberal, com comprovados resultados no crescimento económico e controlo do défice. A geringonça demonstrou que, dentro do quadro democrático e dos compromissos políticos, sempre existiu uma outra alternativa que não passava pela sujeição cega à vontade dos mercados. Se a direita tivesse acompanhado o que autor tem publicado, teria percebido que a geringonça não era uma aliança antinatural, mas o resultado de um caminho feito ao longo dos anos. André Freire deixa-nos aqui uma análise detalhadas dos acontecimentos, seus condicionalismos, avanços e recuos. Suporta as suas conclusões com dados apresentados em tabelas de fácil apreensão por parte de um leigo em ciências sociais, tornando a leitura do livro apelativa sem sacrificar o rigor. Num país que tem a tendência para esquecer os ensinamentos da história é importante ler e guardar este documento. Que a experiência portuguesa faça o seu caminho na Europa, aproximando as decisões dos cidadãos, vinculando os eleitos aos compromissos assumidos com os eleitores e impregnando as instituições europeias de um verdadeiro mandato democrático assegurado por dirigentes eleitos.

O livro conta com um prefácio de António Costa.

Sobre o livro.