A revolução Russa – 100 anos depois

A Revolução Russa teve um impacto decisivo no mundo atual, foi matriz ideológica e de ação para muitas revoluções e movimentos de libertação. Neste livro temos uma abordagem temática à revolução, confiada ao contributo de um conjunto de autores.

António Louçã fala-nos da revolução e da sua génese social, numa convergência assimétrica entre a burguesia, operários e camponeses, tendo os operários assumido a sua liderança (já sob a influência de Lenine).

 

Antes da reforma de 1861 a Rússia, predominante agrária e feudal, tinha mais de 40 milhões de servos, e até à Revolução a situação destes camponeses não sofreu alterações significativas. O tema Agrário na Revolução é a contribuição de Constantino Piçarra. Os sovietes promovem a divisão igualitária da terra pelos camponeses, criando uma incompatibilidade entre a pequena produção e o modelo económico do socialismo. Lenine apercebe-se que o fim da pobreza nos campos não está na posse duma parcela da terra, mas na coletivização da produção agrária, em direta contradição com os anseios dos trabalhadores do campo. Como se desenvolve de forma gradual e consistente a relação entre a agricultura e indústria, sob a vigilância do Estado proletário, é o objeto deste capítulo.

O papel da guerra na revolução russa ficou a cargo de Fernando Rosas. As “Teses de Abril” de Lenine, segundo as quais as revoluções operárias e socialistas não se desencadeavam necessária e prioritariamente nos países capitalistas mais desenvolvidos, com partidos operários e organizações sindicais fortes, mas sim nos os elos mais fracos da sociedade, são eles o ponto de partida. O papel do duplo poder que coexistiu na Rússia e a vitória bolchevique, com a aliança dos sovietes, ocupam a centralidade deste capítulo. O ano de 1917 resume-se por uma contradição essencial: entre a onda crescente das reivindicações da vasta rede de poder popular… e a intransigência e insensibilidade do Governo Provisório… condicionando as reformas desejadas à prioridade da guerra

As questões filosóficas do valor do trabalho levantadas por Marx e Lenine ocupam o capítulo da responsabilidade de Francisco Louçã. Somos levados numa viagem pelo papel do trabalho na criação de valor e o seu lugar no tecido económico.

Como os acontecimentos revolucionários da Rússia são vistos em Portugal, coube a José Manuel Lopes Cordeiro. Inicia-se logo com a tradução de maximalistas atribuída aos bolcheviques, até à deturpação da informação de forma a transmitir a existência de uma situação caótica, de terror instalado, pela qual eram responsabilizados os bolcheviques. Isso não impediu, com o fim da Primeira Guerra Mundial, e influenciada pela Revolução Russa, deflagrasse por toda a Europa uma onda revolucionária a que Portugal não ficou imune.

A organização operária na Revolução ficou a cargo de Miguel Pérez Suaréz. A organização dos sovietes (de base democrática) surge como superadora da democracia burguesa ocidental. O poder sagrado do czar e das suas instituições foi colocado em causa por um movimento popular em que o proletariado ocupava um lugar central. Por altura da Criação da União Soviética, já se tinha perdido o ardor da democracia dos sovietes. As medidas de exceção motivadas pelas necessidades da guerra iam facilitar a caminhada para o estalinismo e para os seus crimes.

O pós-revolução, a consolidação do poder, a fundamentação teórica e o internacionalismo (a exportação da experiência da revolução russa), são os temas tratados por Rui Bebiano. O exemplo nuclear de Outubro, como epifania revolucionária, e a forma como persiste na nossa memória a imagem do instante fundador de Outubro, o papel desempenhado pelos artistas e intelectuais como primeiras vozes críticas, são o tema central deste capítulo.

Finalmente, Tahiz Senna fala-nos do papel da mulher, na sua emancipação e na criação de espaços próprios de debate e decisão, no acesso a trabalhos e áreas reservadas aos homens, até à regressão imposta pelo estalinismo. Para Estaline, a questão histórica da mulher fora resolvida, e grande parte das conquistas são retiradas (como a legalização do aborto e da homossexualidade, a facilitação do divórcio) e as mulheres são alçadas à figura de mães da nação.

A revolução Russa – 100 anos depois, oferece-nos uma viagem pelo processo revolucionário segundo diferentes ângulos (históricos, filosóficos, políticos, sociais e artísticos) que, graças à lúcida contribuição dos seus autores, nos permite  (re)construir uma ideia esclarecida da Revolução de Outubro. Uma obra indispensável para quem deseje conhecer um dos mais extraordinários acontecimentos da história da humanidade.

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