A Trégua | Primo Levi

O olhar curioso e atento que conhecemos do Sistema Periódico continua a acompanhar o tom tranquilo com que Primo Levi narra as suas aventuras desde o momento em que foi libertado de Auschwitz até regressar a Turim. O autor registou em três volumes a sua passagem pela Segunda Guerra Mundial ou a forma como a guerra passou por ele. No Sistema Periódico temos o período que antecedeu à sua detenção pelos alemães e envio para Auschwitz, uma resposta aos honestos e inermes cidadãos que prepararam o caminho à máquina de guerra, repressão e extermínio, denunciadas, porque, sob pretexto algum, alguém pode permanecer indiferente ao seu tempo.

 

Em A Trégua, encontramos o autor nos últimos dias que antecederam a libertação russa de Auschwitz e ao périplo errático em que se vê envolvido até chegar a Turim. A fome que o acompanha como uma maleita que não se despega e que comida alguma consegue saciar. Os primeiros tempos dominados pela urgência de sobreviver, a marcar todos os expedientes e engenho humano de quem, como o autor, descobriu que mesmo em Auschwitz se tem de evitar parecer “um qualquer”. Todas as portas se fecham a quem parecer inútil, todas se abrem a quem exercer uma função, nem que seja a mais insípida.

A retirada dos exércitos, a fria e metódica marcha dos alemães, levando consigo o essencial e de valor, e o extraordinário espetáculo do Exército Vermelho, repatriando-se, depois da vitória, espetáculo ao mesmo tempo coral e solene como uma migração bíblica, e garrido e berrante como uma deslocação de saltimbancos. À obsessiva organização alemã, opõe-se o ímpeto russo que entrega boa parte da organização a si mesma, a uma crença de que as ordens se propagam sozinhas. Duas formas de estar e de se organizar e, contudo, duas poderosas máquinas de guerra.

O olhar humano adapta-se à realidade, sobretudo à esperança, apesar de todos os revezes: agressões, frio, fome, terror, privações e doença. O desespero de tantas vezes caminhar em sentido contrário à fronteira que os levaria de regresso a Itália, agravado pela falta de informação, forçando ao refúgio numa noção muito própria do tempo. Sem nunca abandonar o olhar lúcido e curioso com que brinda a vida, Primo Levi mantem no seu relato um fino sentido de humor. A Trégua é um tributo ao espírito humano de entreajuda e ao génio da sobrevivência. Num momento em que migrações de refugiados são travadas nas fronteiras da Europa, torna-se oportuno ler este livro.

O dilúvio terminara: no céu negro de Auschwitz Noah via resplandecer o arco-íris, e o mundo era seu, precisando de ser repovoado.

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