Mea Culpa | Carla Pais

O estragado é um sem mundo. A prisão de onde sai, no dia de Nossa Senhora, fica do lado do muro alto onde crescem as vinhas. Esse homem inicia uma peregrinação, é um dos estragados do mundo e caminha ao encontro do seu andor que são todas as vidas que deixou para trás e que agora o esperam. Não o desejam, por saber que tomam lugar nesse andor; todos eles, até o padre que manda fechar as portas ao cemitério para que não se desencaminhem as almas que por lá deambulam perdidas.

 

Amadeu arrasta consigo uma dor: a pressão da mão do guarda sobre as suas costas, a empurrá-lo. Caminha ao encontro da verdade que dê sentido aos dez anos que passou encarcerado; os outros julgam que busca vingança. Este é o homem que caminha do lado de fora dos muros altos, onde fica o tribunal, imenso, imundo e baço. Sobram-lhe os braços ao andar. Longe dali, rente aos pilares do curral há um buraco que pare roseiras bravas, será daí que parte Briosa em busca dos cheiros do mundo e ao que cheiram os homens que o habitam.

Esta é uma escrita de freio nos dentes e que se enamora do fantástico com que o mundo se insinua aos olhos ignorantes dos homens e das mulheres. Uma escrita de repetições – como se o tempo da história se congelasse sobre um mesmo momento -, do jargão aberto e quente que brota da ruralidade do mundo e da sua dor. Um registo forte, intenso, numa linguagem própria de pesadelos. Uma violência da qual se esperaria mais mistério, o qual foi remetido para a ação, para a história de Amadeu Jesus que no dia de Nossa Senhora parte em romaria de regresso à sua aldeia. Acolhem-no os pecados que ficaram adormecidos e o esperam para finalmente se libertar. O andor, faz dez anos que desapareceu nas águas do rio, todos os dias é preciso jogar-lhe rosas para o acalmar. Porque quem foge da vida como quem foge da morte, já a encontrou sem o saber.

Desfila neste livro uma demanda opressiva, um circo de horrores que nos devia permitir espreitar por dentro desta escrita em busca de uma história por detrás da que nos vai sendo revelada. O enumerar das situações e dizeres, repetidos ao longo do livro, devia acrescentar algo que tendo estado sempre lá, não nos foi dado a ver da primeira vez. Exceção feita às facas que Briosa vai limpando a pedido da mãe. O erotismo forte, agarrado ao vernáculo da vida, igualmente natural, igualmente violento e uma natureza que apela à distopia: A lama arrastava os peixes afogados no leito.

Amadeu caminha em direção a todas as mortes, à revelação das que aconteceram e ainda estão por acontecer, em busca de uma resposta: podemos pagar por uma morte que ainda não cometemos?

São assim recordadas as ovelhas tresloucadas do rebanho.

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