Os Contos | Giuseppe Tomasi di Lampedusa

A partir da sua experiência particular, o autor transforma este livro num fresco do seu tempo de infância, num retrato de como viviam as casas senhoriais as suas relações sociais e de poder No prefácio somos alertados para a intensidade da efabulação e para a apropriação pessoal da história feita pelo autor. A estrutura da memória, não sendo provida de qualquer nexo cronológico, confunde-se com os lugares da nossa infância. E se dizemos que nos nossos últimos dias gostaríamos de regressar à casa onde nascemos, é porque temos a ilusão de morrer onde sempre fomos felizes.

 

Este livro de contos é o testemunho desse tempo. E tudo soa a mágico, até o protocolo dos sinos da casa grande, pensado com o cuidado de proteger as indiscrições masculinas; permaneciam silenciados quando a visita se destinava a um dos homens da casa. As visitas, recebidas com a devida pompa e circunstância, o fascínio das longas viagens entre casas, os carros e a opulência dos espaços, os jardins envoltos em gracioso mistério, repletos de bustos de deuses obscuros, tudo perpassa nestas páginas, sem o saudosismo de um tempo perdido, mas com a nostalgia de não ter sido possível transmiti-lo às gerações futuras. Os espaços desempenham um papel estruturante nessas memórias. As casas, as suas divisões e funcionalidades, a sua extensão e os pormenores distintivos do bom gosto aristocrático, são peças fundamentais para traçar o legado familiar. São moradias dignas dos deuses e remontam a esse tempo.

Como nos recorda o autor no conto A Sereia, no aristocrata subsiste um ascetismo de vida derivado não da renúncia mas da impossibilidade de aceitar outros prazeres inferiores. Lampedusa surge como homem erudito e distinto académico que conserva em si a gulodice dos tempos de juventude. Existiu um tempo assim.

como fazem os cães bem-educados quando querem mostrar o seu desagrado mas sem ofender os donos.

sobre o livro