Manobras de Guerrilha | Bruno Vieira Amaral

As crónicas dedicadas aos heróis do desporto abrem esta coletânea, agrupadas sobre um título genérico que em si, é uma proposta: emboscadas. Futebol e boxe, não se dissociando este último das suas representações cinematográficas. Pretexto para o autor nos convidar a uma reflexão sobre a forma como encaramos os nossos ídolos, não como numa experiência catártica de expiação dos nossos pecados, mas por serem, nas suas fragilidades e contradições, quem melhor vive os nossos sonhos.

A linguagem do futebol, pela adesão mágica que suscita, presta-se à celebração pela metáfora e pela literatice da palavra agitada como um chocalho e, no entanto, nestes textos a imagem surge como uma ideia que se forma na mente do leitor fazendo desaparecer o lado estridente do artifício literário. É o corolário lógico do que foi dito: já tínhamos a imagem na nossa cabeça, induzida precocemente e de forma natural pelo texto que a precede. Esta é uma escrita sem concessões, que se destina a um leitor adulto e apto a apreciar uma abordagem erudita e inteligente, mesmo que o tema seja o futebol. Um leitor que não se contenta com a musicalidade literária da poesia fácil. Referindo-se ao pugilista Muhammed Ali, deixa-nos esta preciosidade de relevância social: Alguém cujo objectivo de vida não era o de lutar no ringue para viver o Sonho Americano, mas o de alguém que lutava no ringue para poder dizer que o Sonho Americano era, para muitos homens e mulheres, e certamente para quase todos os negros, o Pesadelo Americano.

O autor gaba no escritor brasileiro Nelson Rodrigues as frases totais, polidas, sem arestas, sem hesitações. A escrita limpa e polida até ao osso que Eduardo Pitta reconhece a estas crónicas. O excerto sobre as cabras de Cochim e as suas parentes bovinas devia circular incessantemente nas redes sociais, contagiando e viciando sem apelo na leitura inteligente e avassaladora. Não saímos imunes a um texto assim, num ápice, tudo o já lido fica reduzido a escombros.

A presença nos festivais literários merece um registo desassombrado e pleno de sentido de humor, em que a capacidade do autor para brincar com a sua própria imagem ou “missão”, o isenta de culpa. Não poupa uma alfinetada à classe média que deambula por esses festivais, com uma crença feroz na salvação pessoal através da literatura, e a que os escritores convidados não se frustram em responder proficuamente; o autor incluído. Sempre a crítica inteligente de um agnóstico do meio literário contra a hipocrisia e a dissimulação com que, num ambiente de deferente urbanismo, decorrem os encontros literários. Um desafio permanente à inteligência do leitor, sem a qual não existem bons livros.

somos apenas telas aptas a registar as mínimas variações ambientais: uma aragem, a sombra de um pássaro no chão, o rebrilhar do sol na bandeja de um empegado imóvel.

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