Até que o agonizante deixou de ver o rosto esfumado de Tatiana.

Por fim, ambos encontraram a paz perpétua, ela a vê-lo partir para a eternidade, ele a esquecê-la para todo o sempre. A luta tinha sido árdua, por ser a última entre eles, um a esgotar as forças que lhe restavam e o outro a reagir passivamente. Mas tinham conseguido o que desejavam. Agora eram na verdade aquilo que a natureza sempre lhes pedira: dois. A linha fina mas resistente, que os unira através de todos os desentendimentos, acabava finalmente de se partir. Tensa como era até ali, mal se quebrou, as duas metades retraíram-se de tal modo que nada as poderia nunca mais juntar. Livres!

 

E Tatiana pôde, serena e compassivamente, descer as pálpebras abertas daqueles olhos que, mortos, tinham ficado a olhar a vida num espanto vítreo, terrível, onde pouco ou nada cabia de certas horas puras e luminosas que ela tem.

O senhor Ventura, de Miguel Torga (1943), 6ª edição 2018, Porto Editora

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