Gungunhana | Ungulani Ba Ka Khosa

Gungunhana foi o último imperador das vastas terras de Gaza. Pela força dos seus guerreiros, impôs o domínio dos Nguni sobre as outras etnias, chacinando os que não se lhe submetiam, governando com mão de ferro os que, rendendo-se, se predispunham a prestar-lhe vassalagem. Mouzinho de Albuquerque, com as suas carabinas e metralhadoras, pôs-lhe fim ao império, aprisionou-o e trouxe-o para a metrópole onde foi exibido como um troféu de caça. Foi dessa forma que os portugueses o imortalizaram nos seus livros de história do ensino oficial.

 

Na escrita de Ungulani, o imperador surge na sua corte, rodeado de intrigas, jogos de poder e sedução. Sente-se que esta voz pertence a África. Não reinventa palavras, nem se socorre de efabulações que mais recordam a mitologia ocidental. Sem recorrer a seres mágicos, invoca as lendas que se aplicam aos homens comuns, fala de feitiços que se infiltram no medo dos homens brancos e resultam da comunhão das coisas concretas da terra. Na primeira parte do livro, Ululapi, impera a economia do discurso, as descrições são abreviadas, as frases sucintas e precisas, como na descrição da chacina que teve lugar no campo de batalha: Sobre os cadáveres jaziam aves mortas pelo excesso do repasto. A sabedoria dos aforismos populares chega-nos com sabor africano, o macaco não se deixa vencer pela árvore, ou ser como uma palhota sem capim. Mesmo, quando a um ditado antigo lhe confere uma nova roupagem: Nunca hás de encontrar a água raspando uma pedra, ou quem agita a lagoa levanta o lodo. Só um escritor africano descreveria os portugueses como sendo da cor do cabrito esfolado, ou os mestiços como sendo da cor do mijo. O lado corpóreo do mal, que até aí os africanos não tinham tomado consciência, transformou-se na noção de pecado e para isso trouxeram os portugueses os padres e a sua Igreja; homens com vestes de mulher que os obrigam a confessar males cometidos e não cometidos. Aqui descobrimos que a realeza não é frequente, frequente é a vassalagem.

Do discurso de despedida de Gungunhana, encontramos na segunda parte do livro, As Mulheres do Imperador, o luar interminável que desceu sobre aquelas terras, a opressão branca dos portugueses. Era a maldição lançada pelo imperador aprisionado sobre aquelas gentes, por terem consentido deixar-se dominar. O silvo do chicote seria a partir daí o indicador do progresso, e por sorte, entendia-se ter um patrão pouco dado a palavrões e bofetadas. Nesta segunda parte, uma escrita plena de recursos oferece-nos um fresco desses tempos modernos tão propícios às culturas agressivas e intrusivas que arrasam e dominam. É a Lourenço Marques de 1911, cidade agora republicana, onde pretos e brancos olham com espanto as mulheres da realeza deposta, regressadas após um longo exílio, sem saber o que fazer com elas. Este episódio não podia acentuar mais o contraste entre os tempos dos dois impérios, o de Gungunhana e agora o dos portugueses. Lourenço Marques, traçada a régua e esquadro, impunha a segregação entre brancos e pretos, onde apenas alguma tolerância era dispensada aos asiáticos, baneares e assimilados. Estes últimos, seduzidos pelo estilo de vida dos novos senhores, olhavam o passado como um tempo de barbárie, e, sendo gente civilizada, disfarçavam o sotaque dos pretos quando se expressavam em português. Ao domínio dos Nguni seguiu-se o dos portugueses, cada época tentando obliterar a anterior, a memória é sempre a narração permitida pelo tempo em que se vive. Este romance de Ungulani ajuda-nos a perceber a alma africana na sua multiplicidade de cores e contrastes.

Somos a memória negada. Ninguém vai acreditar na nossa verdade. Esta terra está sendo construída sem o passado.

sobre o livro

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