A Febre das Almas Sensíveis | Isabel Rio Novo

As atormentadas almas sensíveis. Estamos no tempo da esperança, acredita-se que o repouso, a alimentação cuidada e o clima frio e seco da montanha realizam o milagre da cura da tuberculose, recorrendo ao internamento em ambiente termal, num misto de caridade e cuidados médicos especializados.

 

Com quase metade da população do país contaminada e sem recursos farmacológicos para a combater, a tísica atinge os portugueses como uma fatalidade.  Associada à pobreza, a doença das sociedades miseráveis ou a peste branca afunda a família do contaminado numa vergonha social, numa peçonha que todos pretendem disfarçar e impede que a doença seja tolerada em sociedade. O rosto da doença seria assumido pelos poetas, como se a sua condição de almas sensíveis e o seu apego ao belo fossem a fragilidade que a doença espreita. Em pleno Estado Novo, uma família emerge do anonimato das estatísticas de vinte mil óbitos por ano. Não será derrotada pela doença que os atormenta como uma sombra negra pairando sobre os momentos difíceis. Um narrador omnisciente, que raramente vem à primeira pessoa e o faz para revelar a sua identidade – numa fase avançada do livro-, confere uma alma e um rosto à voz de todos os tísicos, sejam poetas, operários, advogados ou professores. A doença e os seus contornos mais desagradáveis, de degradação física e psicológica, são materializados num dos irmãos, cuja saga familiar acompanhamos de perto. O desconhecimento e a superstição, associados à ausência de cura, transformam cada doente numa ameaça à sua família mais direta; por mais amado que seja, uma vez tísico, não escapa à sina de amedrontar os seus entes queridos. Poucos saem curados do sanatório, e mesmo muitos dos que se curam são rejeitados pela família e acabam por regressar. O tratamento pela alcunha empurrando a identidade do nome de batismo para o momento da evocação fúnebre.

Uma rapariga habita este romance como um espectro entre as ruínas do passado, surge amiúde na narrativa como as curtas histórias dos poetas tísicos ou as notas científicas de R.N. São os apontamentos que a autora usa, da mesma forma como emoldura as emoções dos seus personagens ou amplia a noção do espaço onde os tísicos se extinguem lentamente, tão lentamente que por vezes têm a ilusão de uma melhoria. São homens e mulheres que aparentam a idade indefinida dos fantasmas. Um olhar que se demora numa escrita suave e precisa: …um dia de verão esplêndido, desses, raros no burgo, em que o calor se advinha desde as primeiras horas e a luz se derrama em colorações quentes sobre o casario apinhado e a superfície serena do rio, sulcada pro barcos ligeiros. O leitor não se resigna a explorar as memórias desse tempo, à excentricidade de vasculhar as ruínas de dores alheias, nem se transforma num colecionador de histórias de tuberculosos. Existe uma imensa solidão nestes pacientes, forçados a um isolamento asséptico, como se o exercício dos afetos fosse uma perigosa forma de contágio. Prepare-se leitor deste romance para uma febre que o aprisiona e para a qual não existe cura.

Em tudo isso, porém, havia a energia triste dos gestos inúteis

sobre o livro