Um cavalo entra num bar | David Grossman

Um standupista sobe ao palco de uma pequena cidade Israelita. É de um público assim que precisa, o tipo de gente que acaba a viver em Natania. Um público a quem pode gritar: já vos disseram que vocês estão aqui para aquecer o ambiente, antes que o verdadeiro público entre? Tal como na vida, nem todos estão à altura do momento, muitos são os que esperam ser entretidos com as piadas habituais.

Ele apela à sua cumplicidade, são a sua gente adotiva, sem os quais não encontra os seus limites. Alguns conhecem-no do tempo de infância. Um, em particular, deslocou-se a seu convite, é a consciência crítica convidada a assistir e a assumir o papel de narrador. Quando entra em palco procura-o com o olhar, é o personagem em busca do seu narrador. Não encontrará nele contemplação, escolheu-o pela sua capacidade de o magoar. No palco acontece um tortuoso exame de consciência, entre o público há quem se impaciente, proteste. Responde com anedotas sobre o tempo do holocausto, sobre Mengele, que à sua maneira, ele foi um pouco o nosso médico de família. Na sua catarse convida o narrador a recordar o tempo comum de infância, narrador e personagem juntos na mesma cena. O narrador é um juiz, homem habituado a julgar as situações com imparcialidade. Quando o standupista o convoca, é a sua consciência crítica que pretende ver em palco, contracenando consigo. Alguém que ratifique a sua autenticidade. Não escreve o seu obituário, narra antes o seu velório. Os velórios são mais interessantes. Toda a maledicência dos familiares vem ao de cima, as disputas sobre a herança e a reação dos presentes. Não existe melhor retrato familiar. Desloca-se no palco, a expressão corporal e a mímica do rosto são as suas máscaras, nunca se oferece de rosto nu. Bebe um gole do seu termos com a etiqueta “leite” e desabafa: Ah, o sabor dos velhos tempos, como disse a puta ao chupar o velho. A narrativa segue as pausas do espetáculo, são os flashbacks com que o narrador vai recordando acontecimentos comuns de infância. Uma mulher anã recorda o tempo em que ele, miúdo assustado, de pernas erguidas no ar caminhava sobre as mãos: disseste que eu era especial, e que como tu vias tudo ao contrário, quando eu chorava era como se risse. O humor cria espaços de liberdade, não só de exposição pública mas de denúncia. Em palco o standupista recorda que deve evitar a política, mas lá vai soltando umas piadas mordazes: com tal fúria como se estivesse a assaltar uma casa nos territórios ocupados. Num mundo de permanente agressão conseguimos fugir se nos fundirmos com o agressor?

O que leva aquele homem em palco a insistir na sua história? Uma alegoria de quem não consegue desistir da própria vida? Um cavalo entra num bar… é o início de uma anedota que não chega a ser contada, a noite vai longa mas ainda é demasiado cedo para conhecermos o desfecho de uma vida. Podemos sempre fugir caminhado sobre as mãos e ver o mundo ao contrário.

Porque não havemos de nos curvar para agradecer como se deve o condimento picante e doce da vida que nos foi entregue no jardim do Éden?

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