Os Que Sucumbem e os Que Se Salvam | Primo Levi

Neste livro, o último da série iniciada com Se isto é um homem, Primo Levi regressa ao Lager, ao campo de Auschwitz.  Volvidos quarenta anos sobre Se isto é um homem, o autor aborda com coragem e lucidez o holocausto, tentando responder à pergunta se é possível compreender o que se passou, simplificar a realidade ao ponto desta ser explicável.

 

Os que prestaram o seu testemunho foram, tal como o autor, os que nãobateram no fundo, os que tiveram a habilidade e a sorte de alcançar um observatório privilegiado sem se vergarem a compromissos. Nos sobreviventes subsiste a culpa da omissão de auxílio, tantas vezes negada a um companheiro, ao recém-chegado ainda nutrido e forte, e que por si só representava uma ameaça. Subsiste a consciência de que os que se salvaram não eram os melhores. A brutal repressão do nacional-socialismo não santificou as suas vítimas.

Entre os carrascos, os que depuseram em julgamento ou anos mais tarde falaram sobre a sua experiência, a tónica vai para a desculpabilização, ao escudarem-se atrás de um sistema que viciou a sua percepção do valor humano e os impeliu à obediência cega, embriagados de cerimónias e manifestaçõesnazis. O torcionário desculpa-se alegando ter sido amputado da capacidade de decidir. Embora as principais figuras do nazismo tivessem nascido e sido educadas antes do nazismo ter assumido o poder. O autor admite que muitos mentiram de boa-fé, tinham cortado o caminho da verdade até a si próprio.

Contudo, a violência no Lager, muitas das vezes gratuita, desproporcionada e unicamente destinada a provocar dor, servia um propósito: quanto mais dura for a opressão, mais se difunde entre os oprimidos a disponibilidade para colaborar com o poder. A cada recém chegado era-lhe proporcionado pelos Kapos – escolhidos entre os prisioneiros – uma descida aos infernos. Quebrar o ânimo, esmagar qualquer resquício de dignidade e levar as vítimas à degradação cúmplice com a opressão que as esmaga. Essa destituição de dignidade que os  prisioneiros sofriam, facilitava a ação do carrasco, torna-lhe possível executar a sua missão. O homem reduzido à sua condição animal (primitiva), de tão ocupado que está em sobreviver, não consegue pensar na morte de forma premeditada. São como os animais submetidos, que às vezes se deixam morrer, mas não se suicidam.

Os párias, as raças de menor valor biológico, os que professam um culto malvisto, têm estado ao longo da história sob o fio da navalha e o impensável repete-se demasiadas vezes para que o possamos ignorar, mesmo quando o que nos é dado a conhecer enferma dos erros da memória, da apreciação pessoal, do que se está disposto a admitir. Esta obra súmula do pensamento de Primo Levi, judeu italiano sobrevivente de Auschwitz, é um alerta acutilante, de uma profunda e lúcida humanidade, numa escrita que agarra o leitor do princípio ao fim. Porque o mal educa-se, e não precisa de muito tempo para dar os seus frutos.

sentia-se dominado por um enorme edifício de violência e de ameaça, mas não podia construir uma representação deste porque os seus olhos estavam pregados ao chão pela necessidade de todos os minutos.

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