Continuum, antologia poética

Desde que foi inventada a escrita que a palavra habita os livros, esse é o seu espaço de eleição, o ponto de encontro de ideias e âncora incerta para poetas e trovadores. Nove poetas, um pintor e uma fotógrafa juntam a sua arte num continuum de emoções. A Poética Edições deu-lhe forma numa edição cuidada, porque o livro preserva esse lado de objeto de desejo que se quer agradável aos olhos e ao tato.

 

Aqui vos deixo a minha leitura, alinhada pelos poetas que compõem este Continuum.

Até parece que os versos engoliram o poema. A prosa poética de Francisco Valverde Arsénio, plena de um suave erotismo, abre esta antologia. O seu canto a uma musa carnal presa na armadilha abre mote a uma escrita que tece um enleio do qual ensaia soltar-se, para se render e adormecer nos seus lábios.

 

…como insectos acabados de sair // de um macio casulo, // estendem as asas, …

Lídia Borges oferece-nos uma reflexão, em busca de um fio, algo que, na sua atenção incerta, ligue o poeta à palavra. A poesia não é algo mecânico, preciso ou de horário certo. Quem a frequenta, habita uma casa de eternidades que o transcende e se abre ao domínio da alucinação. A transmutação, tão própria da sábia natureza, surge como referência a todos os ciclos de renovação.

 

São lâminas às vezes, os lenços brancos que se debruçam nos cais. Em tudo o que se move ou se aquieta existe um mistério que só o fantástico consegue fixar. Na mente do poeta cruzam-se as sensações num enleio entre o material e o irreal, e cresce no poema esse canto que mão indizível semeou. Tudo o que não nos pertence ganha corpo na escrita de Isabel Cabral.

E eu cresci em ti… // O que tu semeaste em mim.

 

já só renasço quando me sonhas  Existe na escrita de João Carlos Esteves uma dissimulada aridez, uma busca pela precisão do verbo, uma incompletude de alcance poético. Podemos prescindir da poesia? O abraço // ainda que diáfano // alimenta a madrugada… Que se extraviem os poetas na terra em pousio que esta sempre se renova, acolhendo os passos leves do caminhante. Porque do sonho se renasce.

 

na in.clemência abrem-se em erráticas // des.construções onde transita o golpe

Gabriela Rocha Martins oferece-nos o habitual deleite visual com que o texto se entrega ao papel, desafiando as convenções para além da rima e da métrica, dando corpo a discurso inconformado com os limites físicos onde a palavra encontra o seu berço. Esta grafia, elemento passivo na leitura, desdobra-se em duas camadas: o poema lido e o poema recitado, ambos oferecendo percursos diferentes, desinquietando a impossibilidade de todas as vigias. Ao indizível não é permitido zonas de conforto.

 

Só o homem mistura as cores e os seres  Na poesia de João Morgado existe uma alma de trovador popular, de contador de histórias, a recordar-nos que a vida também se contempla com as palavras. E as palavras prestam-se à desconstrução como quem escalpela uma ideia e não se importa com a chave, nem com a hora a que regressa a casa.

 

– O senhor viu por aqui um papel com escritos? // – Sim… foi o senhor que escreveu? // -Talvez tenha sido, ou quem sabe… não fui. Em José Luís Outono estamos perante uma poesia que se faz de consciência, que se interroga e testemunha, mas nunca esquece o humor de quem sobre a realidade, consegue elevar o olhar sem se iludir. Um mau acordar pode ser um despertar, uma oportunidade, mesmo para o verbo que já não se alimenta do sonho, porque outras urgências se lhe sobrepõem, destituídos que somos do lado abstrato de viver.

À selva imensa das conveniências respondemos: deem ao poeta um guardanapo de papel, uma âncora, uma simples gota ascendente para que ele conjugue de forma intemporal o verbo justiçar.

 

deixo-te no chão um poema atrás da porta fechada. Rita Pais oferece-nos uma poesia em forma de prosa curta, onde uma fina sensibilidade revela a maturidade assumida sem complexos. Sou o corpo que desejas, sendo o corpo que tenho.

Pode o poeta desnudar-se ainda mais em dádiva e oferecer-se em mapa de vida? O que então advinha o seu gesto?

ceifo no escuro a colheita estéril que os meus olhos semearam, eis a voz poética latejando no limiar da pele que de gasta, já não lhe pertence e, sem limites, solta essa ânsia-seiva que vertes e em contínuo me goteja.

 

Sei que não cabem nestas folhas, // neste texto, nestas margens // as sensações que ao coração pertencem. Existe na poesia de Graça Pires uma quietude que desliza sem motivo aparente. A canção do poeta tem algo de prece, um lado imaterial que foge à razão e pertence à natureza da vertigem a que se chega sempre demasiado tarde. Um tempo impreciso onde tudo foi criado, suspenso até que os rostos e os nomes o reclamem. Desse tempo mais profundo chega-nos a poesia incendiária das águas.

 

Desde o primeiro momento que a proposta da Poética Edições nos agarra. A imagem da capa, uma criação de Luís Liberato, confere força a um espaço aberto e sedento de magia. Cores de uma força metálica sobrepõem-se aos tons quentes da terra e da qual, como emanações, surgem vultos que subsistem pairando numa outra dimensão. O livro abre e fecha com duas fotos de Soledade Centeno; duas portas, a primeira semiaberta e a segunda fechada. Um rendilhado de ferro sobre o qual, numa técnica que nos remete para a colagem, foram depositadas umas folhas. Folhas velhas e varridas pelo vento, reinventando-se no alfa e no beta de todas as escritas. Fotos a preto-e-branco que demarcam o início do fim, partilhando com os sinais ortográficos o destino de ser contraste sobre o branco da folha.

Atreva-se o leitor a embarcar neste Continuum de emoções.

sobre o livro