Estuário | Lídia Jorge.

Numa geografia incerta, que se depreende ser a de Lisboa (apesar dos nomes com toque sul-americano) e num tempo impreciso, que se percebe ser o nosso, decorre a saga da família Galeano. Uma família em perda, desestruturando-se, empobrecendo. Uma vez pobres, veem-se obrigados a partilhar a mesma casa, disputando entre si as melhores divisões.

 

Edmundo Galeano esteve nos campos de refugiados, sobreviveu a Dadaab e testemunhou o futuro. Por isso, embora à sua volta todo o planeta terra esteja doente, ele vê sombras de mundos luminosos. Resolve, então, escrever um livro, um livro de transição entre o Inverno ferrugento e a terra recomposta da catástrofe. Ele bem sabe que dentro da esfera azul habita o bem e o mal, pelo que se propõe conquistar a beleza para que o seu livro resulte enquanto lição.

O seu irmão Alexandre, pelo contrário, não é um construtor de fantasias, a sua obra é feita de coisas concretas, cravadas na terra, daí que o seu sonho seja transportar água potável, em antigos petroleiros reconvertidos, para os locais desertificados.  E tudo isto indiferente ao facto de, ao voo prometido, suceder-se a queda. Os profetas nascem em tempos de grande privação.

Contudo, não é a adversidade desse planeta decadente, mas sim os dramas interiores, que acabam por destruir a família Galeano. Edmundo vai dividindo os factos do mundo em duas categorias, os que merecem fazer parte do livro e os que não merecem; com isso, vai perdendo o ímpeto de escrever. Os juízos de valor desviam-no da pureza original do projeto, esvaziando-o de sentido.

A escrita de Lídia Jorge toca a realidade com palavras próprias da fantasia e do sonho, destinadas a iluminar o desconhecido de forma quase mágica. As personagens secundárias vivem pelo modo como nos são dadas a conhecer, sendo identificadas a partir de algo que as torna únicas, A que lhe havia beijado a ferida chamava-se Maria das Mercês. A narrativa não se alimenta do discorrer da história que se pretende contar, sim do regresso constante aos mesmos episódios, para lhes acrescentar ou retirar algo que fica a regambolear na mente do leitor; sendo que tudo isso acontece sem verdadeiros retrocessos, porque o livro caminha sempre em direcção ao futuro. E nesse futuro, libertar-se-á a promessa da esfera azul, em cujo interior, habitou o espírito de Edmundo Galeano e toda a nossa esperança.

os limites do meu mundo não coincidem com os limites da minha língua

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