Na Cabeça do Velho | António Barros

Só em 1994, com as primeiras eleições multipartidárias, Moçambique encontrou o seu destino de país independente. Livre de tutelas internacionais, sempre tão solícitas em ditar condutas e formatar pensamentos, o país tinha necessidade de escutar a sua própria voz, de alimentar o arbusto que tem sede. Nunca foi tarefa fácil ou isenta de perigos.

Finda a “guerra pela democracia”, em 92, o país foi democratizado e a economia liberalizada. Impunha-se uma lufada de ar fresco sobre a realidade do dia-a-dia que espelhasse essa passagem do socialismo à economia de mercado, então, o vencer o subdesenvolvimento passou a alívio e redução à pobreza absoluta e a candonga deu lugar à agressividade comercial. As velhas práticas ganhavam novos nomes sem que, no essencial, algo mudasse. Seguiam as manhas do camaleão que muda de cor para se adaptar a cada novo ambiente.

Como bom cronista, António Barros sabe que nenhuma história fica bem contada sem um apontamento de humor, herdou isso do pai, grande contador de histórias às quais conferia o oportuno toque da chalaça. As crónicas, agora reunidas, são frescos atentos à evolução política e social de Moçambique, desde a sua independência até à consolidação da democracia. Das mais politizadas e alinhadas com o discurso oficial, que nos trazem um léxico cuja memória não devemos perder, à crónica de costumes, onde o registo mais solto e humorado nos mostra por inteiro as gentes da sua terra, o autor recorda-nos que o sonho
desponta, mesmo entre os que a vida condenou a habitar no marasmo e no imobilismo.

Num tom, por vezes entre o ligeiro e o ingénuo, encontramos a frontalidade de quem denuncia a luta contra a corrupção nas fileiras do Estado. Por outro lado, quando o autor se centra mais no relato e relega a mensagem para segundo plano, apresenta-se-nos um contador de histórias bem-humorado, que foi, aliás, a marca do seu pai, o “mestre” António Barros. Em boa verdade, essas pequenas historietas dizem mais da realidade que retratam do que os momentos em que o autor adota uma postura de intervenção.

Ao não datar as crónicas, torna-se difícil enquadrá-las no tempo, sobretudo para um leitor que não conheça a realidade moçambicana. Percebe-se, no entanto, existir uma evolução cronológica na maior clareza do discurso, na crescente ambição dos desígnios nacionais e até na progressiva ausência de referências ao dicionário, sinal de que a Internet vai fazendo o seu caminho. Por exemplo, não consegui localizar no tempo, a designação de demente para os que, reféns de uma pobreza extrema, procuram o seu sustento vasculhando no lixo. O
poder sempre encontrou palavras para contornar as realidades que não consegue alterar.

Ao cronista pede-se que nos deixe um retrato do seu tempo, um registo das palavras que vestiram a realidade e de como essa roupagem evoluiu para acomodar as novas eras. E se o fizer com uma boa dose de ingenuidade é porque foi sincero e inteiro no que escreveu.

 

 

António Germano Barros Júnior nasceu em Quelimane, província da Zambézia a 26 de Fevereiro de 1956.
Abraçou a carreira jornalística em 1976 como colaborador da Rádio Moçambique em Quelimane. Além da colaboração na área da radiodifusão, Barros tem artigos publicados na imprensa escrita a nível nacional, nomeadamente, Revista Tempo, jornais Noticias, Domingo e Diário de Moçambique.

O lançamento em reportagem da TVM