O Nervo Ótico | María Gainza

A grande arte abre-se aos pormenores, usa-os numa realidade mais complexa que remete para o universo singular do artista. A grande arte revela-se quando observada, nasce aí para se transformar em festim. María Gainza abriu o seu olhar culto e de leitora atenta à nossa intimidade.

 

O leitor é convidado a partilhar das reflexões da autora e a conhecer as suas impressões sobre pintura e escultura, revisitando constantemente na sua memória as emoções que nos vai oferecendo em pequenos contos repletos de vida, mistério e encanto. Tudo com uma disponibilidade mental aberta, sem procurar explicar ou resumir. Um perscrutar atento e atrevido, mas sempre no limite da descrição e do bom gosto, a que um fino sentido de humor empresta um cunho pessoal. Existe uma linha indelével que percorre todas as formas de arte e que só a cultura de cada um consegue unir, por isso pintura e literatura misturam-se e falam a uma só voz, como se de um mesmo suspiro se tratasse e que alguém procurou imortalizar num traço ou num parágrafo.

Acontece apaixonarmo-nos por uma imagem que não alcançamos na sua plenitude, somos, então, levados pela ideia romântica de alguém, como quando o artista recorre a texturas que lhe são familiares, mas retiradas de outro contexto e sobre as quais cria a interpretação que nos toca de uma forma muito íntima.

Não se pense que a autora apenas nos oferece breves eflúvios suscitados pela arte que vai encontrando em museus, a sua escrita tem algo de inesperado e de provocador, como quando nos oferece esta simples, mas invulgar reflexão: Jesus foi o primeiro a caminhar sobre a água, o primeiro a surfar. Através do seu olhar vamos conhecendo a autora, as grandes obras e os seus artistas, como se cada criação fosse um testemunho que desnuda o seu criador; afinal, a imagem mental que produzimos de alguém tem muito de representação pictórica. María Gainza surpreende-nos ao longo do seu livro, recordando-nos que a cultura viva é a negação de um caldo de repetições, pontuando o seu discurso com uma amadurecida qualidade literária. Se todas as boas obras são pequenos espelhos, então toda a arte é biográfica e remete para a nossa vivência, emoções e aprendizagens. Este é o olhar de aventura que a autora nos propõe.

Há pormenores que se perdem na noite dos tempos e é melhor que assim seja: compreender as coisas por inteiro torna a mente inflexível.

sobre o livro