Fabián e o Caos | Pedro Juan Gutiérres

A Cuba, liberta do jugo de Batista, enfrenta os desafios da revolução mantendo-se atenta aos inimigos infiltrados, cujo primeiro sintoma revela-se pelos desvios ideológicos. Os comportamentos devem pautar-se pela seriedade, disciplina e pela correção, em suma: devem ser previsíveis.

 

A Cuba revolucionaria fez o milagre de acabar com as classes sociais. A nova moeda, para a qual as imensas fortunas do passado não podem ser convertidas, a nacionalização das empresas e das explorações agrícolas, fizeram dos cubanos uns iguais entre si e todos igualmente pobres. Só a moral conservadora, típica da pequena burguesia, e o machismo se mantiveram intocáveis. O estoicismo heroico que conduziria, com muito sacrifício, a Cuba revolucionaria à senda desenvolvimento e a um melhor nível de vida, não passa de uma estrada para o inferno.

Fabián enfrenta essa moral formatada dos tempos da ditadura de Batista e que continua atenta às inconformidades com o projeto revolucionário abraçado a partir da década de 60. O que leva dois seres tão diferentes entre si, Fabián, fraco, tímido e homossexual e Pedro Juan, alto, forte e hedonista, a serem amigos? Ambos não correspondem ao perfil traçado pela revolução. Pesa a balança das provações para o lado de Fabián, pela sua homossexualidade. Ambos condenados a saltar de amante em amante sem nunca lhes ser permitido uma relação séria e estável.

Fabián encontrará no piano a sua força de viver, apesar das suas pequenas e fracas mãos não alcançarem o repositório de certos compositores que exigem uma grande amplitude de dedos. Nada que ele pudesse compensar com muita prática e dedicação; no fim, os seus curtos dedos impedem-no de atingir a perfeição. Pedro Juan encontrará nas mulheres e no sexo o seu principal motivo de vida. O carácter doce de Fabián contrasta com a aspereza de Pedro Juan, um quer trazer ao mundo a sua arte e o outro pretende dobrá-lo à sua vontade. Tão díspares entre si que parecem nada ter a oferecer um ao outro. Uma relação sem compromisso possível, livre e nessa liberdade se alicerçou a amizade que acabou por os unir.

A escrita de Pedro Juan Gutiérres é desabrida, não poupa na linguagem, na descrição precisa dos encontros sexuais, sem entrar em voyerismos sórdidos, não disfarça a violação a que Fabián é sujeito na fábrica de enlatado de carne de porco. A descrição que aí faz, da matança dos porcos, é um festim de violência sádica. Quem possa ter alguém por baixo, pessoa ou animal, comporta-se sempre sem piedade.

O final do livro demonstra que o autor não encontrou substituto à tradicional moral católica e burguesa, ou a revolução não soube construir uma identidade que a relegasse para segundo plano, e deixa o final entregue ao remorso e à falta de esperança. Um livro forte que, sem nunca referir os protagonistas da revolução pelos nomes, traça um quadro negro e cruel da mesma. Escrito em Cuba em 2015, este livro é um sinal dos tempos.

 

ele ficava fascinado com aquela ideia barroca de preencher todos os espaços, de ocupar todo o  tempo, de saturar cada vazio com a música e não deixar um resquício para respirar.

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