o escuro que te ilumina | José Riço Direitinho

Um voyeur observa os vizinhos nos prédios em frente ao seu. A rua interpondo-se como um abismo. A intimidade alheia não o satisfaz, o que o seduz são as histórias que cada um leva para o regaço da sua intimidade. Nutre por uma vizinha a excitação platónica que o traz obcecado. A minha mais ousada fantasia sexual és tu, é a frase de abertura do livro. O abismo é o resguardo do confessionário.

 

Escreve em jeito de diário onde regista os pensamentos e onde ensaia o papel reservado à própria escrita, a única transgressão a que se permite. Refugia-se na perversidade alheia para escapar à própria tentação. O desejo de saltar é dolorosamente forte. O maior abismo é a distância que nos separa da realidade.

Acredita que o sedutor obtém a aprovação muito antes de abrir a boca; existe nesta escrita um ensaio sobre a timidez, dedicado aos eternos rejeitados, aos destinados a acreditar na erotização da inteligência (um mito entre os falhados crónicos na arte da sedução, para que se saiba).

Que faz o tímido quando se solta? Parte em missão, tal como o peregrino vai evangelizar povos distantes e culturalmente bizarros. Mistura-se, miscigena-se, dá e recebe. Quem evangeliza, fá-lo sem julgamento moral. Mas até o missionário, na busca pela salvação, se justifica: A transgressão como movimento de fuga e de alívio, acto essencial de libertação e aceitação do “eu” como ele é: vem nos livros. E aos livros, vai buscar uma série de referências que amiúde transforma em citações, ténue dissimulação de uma libido doentia ou de uma mente perversa; finge acreditar que se move apenas pela satisfação da curiosidade intelectual. Aquele que se entrega à devassidão erótica não faz mais do que descobrir a linguagem do corpo.

Numa escrita direta, sem perder o tom ou a contenção, o narrador oferece-nos um pouco da sua experiência. Não a de devasso, mas a de compulsivo voyeur e de romântico incorrigível, prendendo o leitor ao abismo que se abre entre o desejo e a coragem de o satisfazer. Existe neste livro, entre o pecado e a crença na superioridade do amor, um toque de oração.

Postei-me depois diante da juíza, a menos de um metro de distância, com o marsápio na mão: erecto, cheio, venoso, com o prepúcio todo recolhido (como quase sempre me acontece). Abanava-o devagar: ora para a direita, ora para a esquerda: em jeito de pêndulo que oscila na horizontal. O olhar dela seguia os movimentos da glande como quem segue a bola num jogo de ténis, ou como uma aplicada de estudante de música atenta aos movimentos do metrónomo.

Sobre o livro.