Marinheiro de águas doces, tomei o leme e leveia-a até ao quarto, com a mansidão das ondas cálidas e quietas. Ascendemos a bordo um do outro, navegando a todo o pano, num temporal de velas e mastros, como os últimos tripulantes desesperados de uma embarcação à deriva. No leito marítimo ficaram as feridas sanguíneas e leitosas de mulher aproada e esventrada.

 

Ancorei nela com a bonança que chega depois da tempestade – como navio agitado em vagas aflitas, exausto e salgado do mar de desejos, repetindo teimosamente cada gesto, na ânsia de chegar a bom porto mais uma vez. Da batalha naval restou a presença da maresia, em cujas algas perfumadas me aninhei até amanhecer. Hmmm… Maria.

entre mulheres – diário de um lisboeta, Vera de Vilhena, Poética Edições, 2018.

 

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