cair para dentro | Valério Romão

Valério Romão é um autor a várias vozes mescladas numa única narrativa. Da voz isenta de género que surge no discurso indireto livre, às vozes femininas das duas personagens, disputando entre si o lugar de protagonista, sujeitas ao foco da narração e ao que se espera de cada uma delas. No ar permanece uma angustia de animal enjaulado que corre em todas as direções, sem materializar os limites do espaço a que está confinado.

 

A ação alterna entre a reflexão/memória e a ação direta, sem uma grande preocupação cronológica, construindo uma história que se vai revelando, completando-se, dando forma a pequenos relatos dispersos, encaixando os personagens secundários na narrativa principal, sem nunca permitir uma grande proximidade, conferindo-lhes sempre uma não pertença, um estar por empréstimo. E tudo se vai resolvendo na mente do leitor, esse é o espaço de eleição, a tela sobre a qual se desenha toda a trama, se é legítimo falar em trama. Existem duas mulheres ou uma só, dividida em idades diferentes. Existe a vida sem rede e a realidade a acordar-nos para ela, e a forma peculiar de cair para dentro imposta pela doença que nos apanha na curva final da vida.

A escrita de Valério Romão estende-se por frases longas, reclamando toda a mancha de um parágrafo. Este narrador é um contador de histórias que alimenta o ponto de vista dos personagens e assume a sua voz no discurso direto, para de seguida, regressar a uma reflexão sobre um qualquer assunto que lhe ocorre, sem exercitar em demasia o músculo da metáfora, revisitando apontamentos poéticos roubados a outros tantos poetas (identificados no fim do livro) que completam a voz de Eugénia. Por vezes, uma ideia em surdina, uma melodia em segundo plano, quase sumida por baixo do tema principal, respira, ganha corpo e destaca-se na narrativa. São estes múltiplos planos que desafiam o leitor, como se espreitando por detrás de cada frase descobríssemos um novo trecho. Todas as palavras já foram usadas, ousemos destroná-las e dar-lhes novos usos que a dimensão do real só se solta numa narrativa.

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