Caros Fanáticos | Amos Oz

Estes três ensaios, sem pretensões académicas, reúnem um conjunto de palestras proferidas pelo autor em Israel. O ponto de partida é claro: o fanático não discute. Quando se depara com algo que crê ofensivo aos olhos de Deus, cumpre o seu dever de exterminar essa ofensa, erradicá-la da face da terra com todas as consequências que daí advêm, matando o vizinho ou, mesmo, um familiar. É mais um sentir em vez de pensar.

 

Amos Oz recorda-nos que o fanatismo é anterior ao  islão,  cristianismo ou judaísmo, e precede no tempo qualquer ideologia (embora não nos ofereça uma prova ilustrativa disso). Como medida preventiva propõe a criação de uma disciplina dedicada ao estudo do fanatismo comparado. Enumera os antídotos que o podem combater, sendo os dois primeiros a curiosidade e a capacidade de imaginação; ingredientes que acredita serem capazes de imunizar-nos parcialmente contra o fanatismo. O humor, com a sua desvalorização do sublime, cria um distanciamento em relação à Verdade que nos afasta do fanatismo, é um dos mais poderosos antídotos.

O autor rebate a argumentação que se socorre do repositório nacionalista baseado nos direitos sagrados do povo de Israel expresso nas Escrituras. Ao não encontrar na Bíblia qualquer alusão ao “sangue judeu”, constata ser esse conceito uma invenção de Hitler, vertida nas Leis de Nuremberga. Um discurso virado para Israel não podia passar sem analisar o judaísmo ortodoxo, apontando-lhe contradições insanáveis que lhe diminui o direito a reclamar ser o guardião da identidade judaica.

Para não perder o pé junto do público a que se dirige, reclama com frontalidade não ser um pacifista, reconhecendo o direito de um povo a defender-se contra o agressor. Sem confundir o direito do povo judeu a viver livre na sua terra da usurpação de territórios que acrescentam ao nosso apartamento mais dois ou três quartos à custa do vizinho palestiniano, roubando-lhes as terras e negando-lhe o direito à liberdade. Propõe o primado da influência contra o moldar o outro segundo o nosso modelo de modo a que ele deixe de ser o outro e se torne uma cópia de nós ou um satélite nosso. E fixa um novo mandamento baseado em algo transversal a todas as culturas e restrições morais: a dor, todos a sentem. Quem causa a dor sabe que está a fazer mal ao seu semelhante. O novo mandamento é simples: Não causarás dor. Esta é uma voz esclarecida que se ergue contra o fanatismo em todas as suas vertentes e rostos.

Do lugar onde temos razão
jamais brotarão
flores na primavera.

O lugar onde temos razão
é calcado e duro
como um saguão.

(Yehuda Amichai)

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