Uma História Antiga | Jonathan Littell

Um homem rasga a superfície líquida de uma piscina, erguendo a cabeça para respirar. Jonathan Littell abre o seu romance com a epifania de um nascimento. Um homem parte para o seu dia e vai vivê-lo repetidamente ao longo do livro, numa geografia imprecisa a que acede como quem atravessa um umbral, repetindo os mesmos gestos e encontrando  personagens que se vão repetindo. Nem ele, nem essas pessoas permanecem os mesmos. A repetição não visa alcançar a perfeição ou desfazer um enigma.

 

Em cada iteração o autor convoca os fantasmas mais profundos, avançando um degrau mais na transgressão dos seus próprios limites, quer de género quer de aceitação. Uma desconstrução de identidade em que só a violência, ensaiada nas mais diversas formas, oferece resposta. A passividade dos parceiros sexuais acentua esse lado pessoal e solitário do percurso.

A escrita apresenta numa linguagem muito física, a contrastar com o afastamento da realidade imposta pela narrativa. A descrição das cenas de violência ou de sexo explícito são cruas e dispensam o uso de metáforas, reforçando o lado mais físico do ato. A adjetivação contida contribui para momentos de grande qualidade literária. Contudo, uma tradução mais cuidada devia extirpar a narrativa da repetição de palavras e de lugares comuns.

O eterno regresso ao mesmo dia e a água da piscina a ser rasgada como um véu, transformam-se num limiar de expiação sem a promessa de paz. A recreação da mesma cena, vezes sem conta, num movimento perpétuo, como se de um exercício de escrita se tratasse, transforma-se no ensaio de soluções alternativas, até à desconstrução total dos personagens. Um romance para leitores intrépidos.

 

Ele estava agora sentado à borda da cama e enfiava as peúgas e as suas pequenas botas de cabedal. Uma inquietação surda endureceu-me os músculos, hesitei e depois fui ver nos bolsos do fato treino, antes de me voltar para ele com um gesto de impotência. O rapaz tinha-se levantado e estava à minha frente, de ombros um pouco vergados, rosto calmo e frio; uma sensação de ameaça emanava dele, não da expressão do seu rosto, mas do arredondado dos ombros, da tensão das coxas, do repouso enganador dos braços pendentes.

sobre o livro