Fátima e a Cultura Portuguesa | Miguel Real

Afastando, logo no prefácio, a tese da maquinação e aceitando que as três crianças vivenciaram uma colossal e desmedida experiência psíquica, que as forçou, contra tudo e contra todos, a afirmar as aparições como uma revelação do sagrado, o autor escreve um ensaio sobre o percurso do fenómeno de Fátima na nossa sociedade e na Igreja Católica e confronta-a com o pensamento filosófico português. Como partindo da natureza popular de Fátima, marcada por uma representação eclesiástica supersticiosa, se atinge uma tal dimensão religiosa institucional, fortemente imersa numa representação barroca do sagrado.

 

Até 1930, a Igreja não tira o devido partido do sucesso popular de Fátima, um longo caminho será percorrido até que o Cardeal Cerejeira a declare Altar do Mundo. As Aparições têm lugar em 1917, em plena Grande Guerra, após criação do CEP (Corpo Expedicionário Português, janeiro de 1917), enquanto na Rússia, uma revolução de cariz operário, derruba o Czar. Em Portugal impera ainda o laicismo republicano hostil à Igreja Católica (pós Afonso Costa), que só em 1918, com Sidónio Pais e a ideia de uma Nova República, regressa a valores historicamente monárquicos, aproximando-se assim da Igreja Católica. A laicização imposta, aquando da implantação da república, por si só, não alterou em nada o estado de pobreza e de ignorância em que viviam os portugueses, mantendo-se a maioria enraizada nos seus usos e costumes, fiéis ao culto do imaginário católico. A urgência de ressuscitar a pátria portuguesa, o regresso à glória de tempos idos, torna-se a matriz de um patriotismo baseado no sentimento de saudade, alimentada pelo espírito saudosotão presente entre os maiores pensadores portugueses. O triunfo do espírito contra o racionalismo da primeira república.

A tese do autor defende que Fátima não existe por si só. Um povo dado ao espírito messiânico e predisposto a aceitar a intervenção divina na sua história, está, desde o mundo rural (e analfabeto) ao urbano (ligeiramente mais alfabetizado), apto a abraçar o Mistério de Fátima. A acreditar que a Senhora apareceu, pairando sobre uma carrasqueira, para falar a três crianças sobre o muito ofendido que se encontra Deus, insistindo na sua reparação. Fátima encontra as condições para ressuscitar a mentalidade mítico-religiosa, supersticiosa, rural e crédula, que o Liberalismo e a República tinham tentado apagar da consciência colectiva portuguesa. O cariz popular e espontâneo do fenómeno religioso que, na sua génese, não conta com a mediação da Igreja, transforma-se numa entrega direta a Deus, sem o cumprimento burocrático da liturgia. As multidões respondem ao seu apelo. Num país sem infraestruturas, com estradas rudimentares, a maioria dos peregrinos vê-se obrigado a fazer o caminho a pé, impondo, como ritual, esse lado sacrificial de entrega e purificação. Miguel Real inscreve o fenómeno de Fátima na sua época e na matriz do pensamento português e ajuda-nos a perceber como um fenómeno mariano se impôs em Portugal e perdura para a posteridade.

Fátima foi, assim, um espaço de hierofania, de emergência do sagrado, que as três crianças, formadas pela religião dos seus pais e da comunidade, identificaram com os símbolos históricos da Igreja Católica.

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