Uma Questão de Conveniência | Sayaka Murata

A loja de conveniência está repleta de sons, sons familiares que nunca mudam e constituem uma forma de normalidade; neles habita a nossa zona de conforto. Irasshaimasê, projetado com um sorriso, é a forma protocolar de receber os clientes. Na reunião da manhã, antes da abertura, os funcionários treinam as frases das promoções e a forma de receber os clientes. O manual de comportamento da loja de conveniência é um guia de comportamento social, um credo, segui-lo, oferece a garantia de que nada pode correr mal.

 

Keiko, há muito que ultrapassou a idade em que as mulheres se casam e se dedicam a cuidar da família; para solteira, há muito que ultrapassou a idade de um emprego incerto e mal pago, como o da loja de conveniência. Quando criança, apercebeu-se da sua inadequação social, de como era melhor manter-se calada e não partilhar ideias para evitar chocar os outros. As convenções sociais convidam à uniformização, à invisibilidade. Seguir o padrão, estar na zona certa para a sua faixa etária e preencher todos os estereótipos. Sem uma carreira bem sucedida, das que exigem total dedicação, por que razão Keiko não se casou?

Ser funcionário da Loja de Conveniência oferece um guia para a invisibilidade social, uma forma de cultivar a espontaneidade sem causar embaraços. Apenas manter o cuidado, de quando visita as amigas, desculpar-se com a saúde frágil para justificar um emprego precário. Assim ninguém se apercebe existir em Keiko qualquer coisa que precisava de ser corrigida. No manual da Loja de conveniência está lá tudo: a forma normal de sorrir e o modo mais correto de se falar com alguém. Keiko sentiu-se renascer. Os seres humanos são extensões uns dos outros.

Depois chegou Shiraka, outro desadaptado, mas ao contrário de Keiko não se esforça por se integrar no aquário de vidro que é a Loja de Conveniência. Shiraka rejeita o doloroso processo de normalização. A normalização, mesmo a imposta pelo manual do funcionário, abre uma esfera de intimidade à qual Shiraka resiste. Ele é um som dissonante na Loja de Conveniência.

Numa escrita de aparente simplicidade, Sayaka Murata oferece-nos um fresco sobre as imposições sociais, as metas mínimas de sucesso pessoal e profissional que compelem cada cidadão. O emprego, o casamento, a família e a projeção profissional são  metas essenciais à normalidade, não as atingir gera desconfiança e obriga a explicações. Keiko habita esse mundo de desassossego.

Se as pessoas acham que há algo de esquisito, sentem-se no direito de invadir a privacidade para descobrirem os motivos dessa esquisitice.

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